O MEU POEMA
Sem que esperasses,
a dada
altura subi ao palco
e fui dizer
um poema meu,
que tinha
guardado,
num papel antigo e amachucado.
Vi do palco,
nos teus olhos pequeninos,
uma
expressão de surpresa.
Eu sei que
não sabes que eu vi,
mas eu vi.
Depois
sorriste,
eu vi.
Confessa que
sorriste.
Não me
conhecias assim,
eu sei,
por isso
quase emudeceste
e te
sentiste intranquila,
por não me
saberes taxinomicamente conformar,
por achares
que cada um é como cada um
e que aquilo
que eu tenho é meu,
que aquilo
que eu escrevo é meu
que aquilo
que eu sinto é meu,
e eu sou
como cada
um.
Depois
perguntaste-me
De quem era
o poema
e porque não
tinha dito
que era meu
o poema,
se era meu o
poema.
Querias que
eu tivesse dito
que o poema
que eu escrevi
fui eu que
escrevi.
Porquê?
Dizer-te que
ele é meu,
é coisa que
não posso.
Para quê
dizer-te que ele é meu
se por um
instante,
quando to
disse,
sentiste que
afinal ele é nosso.
Gostaste
dele
e porque
gostaste dele
gostaste
mais de mim.
Gostaste de
mim porque o dizia,
da forma
como o dizia…
sem saberes
que o escrevi.
Ao gostares
do que eu dizia,
depois da
tua surpresa
e do teu
sorriso,
de quem tu
mais gostaste, realmente,
foi de ti!
Não peças ao
poeta
para dizer
que é seu o poema.
O poeta sabe
que é dono de coisa nenhuma;
que as
palavras, os sentimentos,
os encantos
e desencantos
e até as
vírgulas e os pontos
já existiam
antes de ele nascer.
Ele apenas
junta palavras,
arruma
letras,
e põe flores
nas jarras,
em vez de as
usar
para a
correspondência não lida.
Se o poeta
te disser um poema
que não é
dele,
nem nunca
poderia se dele,
porque as
palavras,
os
sentimentos,
os encantos,
os
desencantos,
as vírgulas
e até os
pontos
nunca
poderiam ter sido arrumados por ele,
quando
começar a dizer-te o poema
- ele diz-te
quem o escreveu.
Quando
começares a ouvir um poema
não te
importes com quem o escreveu.
Depois de te
surpreenderes,
Sorriste…
Se me
perguntaste, depois,
porque te
não disse
que o poema
era meu,
porque
gostaste daquilo que escrevi…
fico feliz,
como poeta,
sentindo que
foi uma missão que cumpri:
permanecer
pedinte da tua surpresa
e do teu
sorriso
e ficar
ditoso
por ver nos
teus olhos pequeninos
que ao
ouvires o poema
gostas mais
de ti!
Disse-te um
poema, mulher.
Disse o que
te disse
e também o
que te não disse,
quando
juntaste sentimentos
como eu as
palavras
do poema que
escrevi e que te li,
podendo ter
sido escrito
por outro
qualquer.
Apenas te li
um poema, mulher.
Não queiras
saber todos os meus segredos
de repente.
Primeiro,
porque não tenho segredos,
e se os
tivesse,
nunca
poderiam ser
Para serem
lidos de repente.
Eu escrevo
poemas, mulher,
e escrever
poemas não é como dissecar rãs.
Um poeta
normalmente não tem segredos;
um poeta
normalmente é um segredo;
se deixasse
de o ser,
deixava de
ser quem é.
Deixava de
ouvir acordes
em pedras
que dizes brutas
e até de
encontrar poesia nas rãs.
Deixava de
ler para ti
um poema que
escreveu
só para ter
a felicidade de te ver feliz
quando to
leu.
Ser poeta
não é uma virtude;
é uma
doença.
Não queiras
dissecar um poeta
como se
disseca uma rã,
para lhe
separar os órgãos.
Ele é todo
coração!
O poeta é
feito ao contrário;
é um
desajeitado que tem dentro de si
deus e o
diabo,
uma criança,
um homem e uma mulher.
Ele é um
aborto!
Ele vê
coisas nos sítios de outras coisas
que, diga-se
a verdade,
quando ele
to diz,
às vezes
também tu vês.
Ele diz
coisas, escreve coisas, sente coisas
que lembram
a deus e ao diabo;
aos dois, em
simultâneo,
quando estas
divindades são para ti
uma de cada
vez.
Queres
conhecer deus?
Para
conhecer deus,
é preciso
primeiro
ter uma
longa história de sexo com o diabo.
O diabo está
no sexo;
por isso é
que muitas vezes
o sexo é que
é o diabo!
Mas o diabo
não tem só a ver com sexo,
não senhor!
O diabo tem
também a ver
com as
desgraças,
e as graças,
com as
aventuras,
e as
desventuras,
e a saúde,
e a doença,
e a
tristeza,
e a alegria
e…
puta que o
pariu,
que o diabo
tem a ver com tudo!
É um deus;
está em todo
o lado.
Como nós,
quando
estamos em todo o lado;
é como nós,
quando somos deus.
Sim, deus,
não forçosamente
a divindade,
um deus
assim da nossa idade
e feitinho à
nossa semelhança…
com este
narizinho,
e estas
orelhinhas…
Como nós!
Moldado com
esta merda de barro
que, às
vezes, faz coisas magníficas.
Queres falar
com deus?
Fala com o
poeta!
Ajoelha-te e
diz-lhe
por aquela
grelhazinha
o que te
dói.
Se ele for
sincero,
vai
responder-te, depois,
que também a
ele às vezes dói tudo.
Não que lhe
dói aqui e ali,
dói-lhe
ver-te, também a ti, de joelhos,
e quase
sempre lhe dói a alma
por não ter
tido a oportunidade
de contar
todos os seus desejos.
Fala com o
deus, que,
como o
diabo,
está em toda
a parte,
e em todos,
e por todos,
e, que, por
tradição,
todos,
rigorosamente
todos,
clamam
e cantam
e rezam…
Valha-me
deus!
Deus queira
que sim!
Deus queira
que não!
Qualquer
dia,
se deus
quiser!
Fala com o
poeta,
fala com
deus,
fala com o
diabo,
fala com
toda a gente
diz tudo
tudo,
tudo,
como os
malucos.
Não faças
como o poeta
que apenas
diz o que lhe vai na alma,
seja verdade
ou mentira;
apenas e só
o que lhe
vai na alma.
Fala bem
alto,
a plenos
pulmões;
não em rima
e em versos.
Fala como o
diabo quer,
com o peito
aberto,
as mamas
para cima,
mas fala,
mulher.
Não fales
como os poetas,
como deus
quer,
dos
sentimentos
dos lamentos
e de tantos
tormentos,
que num dia
de sol
e em
momentos de fortuna
ninguém
acredita…
se deus
quiser!
Se falares
baixinho
e escreveres
poemas, como eu,
corres o
risco de adoecer;
que esta
lepra se te pegue
e te comecem
a doer as dores do mundo.
Pior,
podes
tornar-te uma poeta
e começares
a dizer toda a verdade
e seres toda
coração.
Se isso te
acontecer, mulher,
podes não
poder voltar atrás.
Começas a
ver ninfas
e a ver nas
coisas
o que as
coisas não querem que se veja…
Começas a
ver nos sorrisos
o estado de
alma
e entendes
que não te podem dissecar
como a uma
rã,
porque te
tornaste toda coração!
Pior ainda,
podes correr
o risco de conhecer a liberdade
e não querer
menos;
querer saber
tudo,
querer
sentir tudo,
querer viver
tudo,
tudo ou
nada!…
E, então,
dir-me-ás um poema teu,
sem me
dizeres que é teu.
Compreenderás
que o proprietário
pertence à
sua propriedade;
é,
irremediavelmente, um pobre titular.
Nesse dia,
se ele
chegar,
ler-me-ás um
poema teu,
e se vires
que eu me surpreendo,
que me
emociono,
e sorrio,
pensarás,
sem mo dizer,
que o poema
que escreveste
agora também
é meu!
Vasco
Ribeiro
2016
INCAPAZES DA
VIDA
Longe dos comedidos e remediados
funcionários administrativos desta vida,
prefiro os que arriscam
por uma alcova, uma razão ou um sonho.
Destes, prefiro os que viveram
e viveram intensamente
mesmo perdendo a fé, a glória e o dinheiro,
que arriscaram sempre,
como se cada dia fosse o último,
o melhor e o derradeiro.
Longe dos que não bebem,
não fumam
e não fodem,
dos que não se comprometem
e aprenderam a arte de saber viver.
Longe do hábito burguês e do olhar sibilino,
prefiro, de longe, aqueles que não têm
e aqueles que não
podem,
mas que irão sempre a jogo
até que as veias lhes adormeçam
e o coração definitivamente pare.
Os que para si mentem o que sentem
apenas para confortar
aqueles que não têm e não podem
e deixam de acreditar.
Prefiro estes Quixotes de cordel
Com alma desprendida.
Prefiro-os como
amigos e como inimigos,
mestres anónimos e clientes de bordel,
incapazes da vida, mas senhores do seu destino.
Ai, incapaz
da vida
Que não
sabes viver a vida
como um
qualquer guarda fiscal.
Que não
coleccionas moedas nem estampilhas,
Que não
sabes da vida dos outros,
nem dos
artistas,
nem dos mais
ricos…
E sabes
porquê?
Porque não
lês a revista Forbes,
porque não
frequentas os consultórios
onde poderias
comentar com a senhora do lado
as páginas
grávidas da Hola;
grávidas de
talentos,
grávidas de
estrelas,
grávidas de
meninos que nascem nos casais reais.
Tu nem sabes
que a Noémia,
do segundo
andar esquerdo
pôs os
cornos ao marido…
Coisa que
toda a gente no bairro sabe…
Ai, incapaz da vida,
assim não vais longe!
Assim ficarás em ti, igual a ti, com as tuas ideias,
em vez de teres as ideias dos outros,
as aventuras dos outros, que conhecem outros
que lhes emprestam aventuras.
Tu não leste, nem aprendeste
que “o importante não é viver; é saber viver”!
Disto tu sabes nada!
Não andaste nesta faculdade
ou não foste às aulas
e andaste por aí distraído
a falar de ideias.
Sempre as ideias…
O belo, o justo, a liberdade…
Que interessam o belo, o justo ou a liberdade,
se não servem para uma panela de cozido?
Ah?
O que interessa são as coisas,
As coisas simples, comesinhas.
Repara na palavra: c o m e s i n h a s.
Coisas que se pode comer em mesinhas.
Mesinhas tapadas de naperons de crochet;
mesinhas com toalhas aos quadrados,
onde se come linguiça e se canta o fado…
Coisas de gente do dia-a-dia,
que vota nos candidatos por razões precisas
e concisas.
No candidato que tem olhos verdes e muito carisma,
no da madeixazinha branca, que lhe fica tão bem…
Agora as ideias…
Só podia ser teu!...
Vês porque continuas incapaz da vida?
Vês porque poderias continuar sozinho
se estivesses sozinho
em vez de estares com o mundo?
Vês no que dão as ideias?
Aprende os acordes de uma chouriça com água-pé,
o andamento de um tinto da Bairrada,
a paleta de policromia
de uma tarde de futebol ao domingo
e a beleza do tablier com o novo GPS…
Acorda, homem,
acorda para as coisas da vida,
que a vida não é para viver,
mas para saber viver…
Não desacordes com aquele senhor
que aquele senhor é muito rico!...
Não digas que não,
porque se está mesmo a ver que vão todos dizer que sim
depois do discurso, de depois do almoço.
Aprende a viver, homem!…
Não te aflijas com os males do mundo,
que o mundo não tem rins,
nem próstata,
nem ovários…
O mundo até está a ser programado
para não ter doenças;
para ser feito de tijolos, cimento e pedra;
coisas que não ardem,
que não doem…
Doenças? Só as que forem programadas
pelos laboratórios e a OMS, e coisa pouca:
vacas loucas,
aves com gripe…
Como vês, tudo coisas com as quais não tens que te inquietar.
Os laboratórios e a OMS sabem exactamente
o que, para não te preocupares,
tens que gastar!
Acorda Amigo, acorda Irmão…
Porra, acorda para a vida
que não é para ser vivida…
é para gastar!
Queima os livros que tens a encher-te a casa,
a fazer pó e a criar traça.
Aqueles que leste,
paciência,
já não podes destruir, porque estão em ti
e nas tuas ideias,
mas acaba com os outros.
Deixa só os de quadradinhos
e os de culinária
e os dos Cinco…
Os dos Cinco, não!…
Que o Zeca andou aí a dizer
“venham mais cinco”…
Guarda aquela enciclopédia encadernada
que nunca abriste
mas que fica tão bem na estante.
Desiste de viver
e daquela coisa que dizes que trazes na alma, homem...
O que já viveste, paciência…
Começa a aprender a viver,
a saber que “uma mão lava a outra”
e as duas podem lavar-te a cara
que nunca mais reconhecerás
quando fizeres a barba…
É como se fizesses uma operação plástica
que te permitirá veres no espelho
um homem médio, do dia-a-dia,
que colecciona selos e estampilhas
e não borboletas e poemas,
e todas essas paneleirices…
Se quiseres decorar, põe piercings;
e se quiseres pintar, faz tatuagens.
Tens pescoço, braços, pernas, peito, costas e pénis
para quê?
Pinta-te, escreve-te,
Não andes a gastar guardanapos
dos desgraçados dos donos dos restaurantes
a escrever poemas e a fazer desenhos.
Um dia, algum empregado de café
pode guardar algum dos teus desenhos
ou até mesmo algum dos teus poemas
e tornar-se, também, incapaz da vida.
Compreendeste bem!
É verdade que essa incapacidade pode contagiar-se.
Pode bastar três dias sem ver televisão,
seis meses a ler livros
e ouvir as letras de meia dúzia de canções subversivas
e zás…
começar a nascer outro incapaz da vida.
Não vás para a falésia, sozinho,
ouvir o murmurar do mar.
A praia é para tomar banho em Junho, Julho e Agosto,
para bronzear e ver gajas boas quase nuas…
Ver o mar?...
Escrevinhares poemas a olhar o mar,
num blocozinho ridículo,
com a alma desabotoada, ali ao frio?
O teu lugar é em casa
como um bom chefe de família.
O teu lugar é a tomar uns copos
com os chefes e não-chefes de família,
a jogar às cartas com um palito entre os dentes,
como qualquer macho que é macho.
Desce a bandeira e guarda os filósofos,
que as filosofias nunca deram de comer.
Atira-te à informática,
que parece ser uma carreira de futuro.
Entra no empreendedorismo
e nas novas oportunidades.
Faz croquetes e rissóis, para vender,
ou inventa uma máquina para descascar batatas
enquanto se faz ioga;
coisas úteis…
Agora, as ideias?...
Vou-te dizer…
Com as ideias não vais longe!
Se te for demasiado difícil desistires
dessa coisa das ideias
e chegares mesmo a ter alguma recaída,
podes inscrever-te numa associação, num partido;
eles têm sempre uma grande colecção de ideias
entre as quais podes escolher.
Arranjas amigos,
combinas piqueniques
e, com sorte, podes ser fotografado,
vir nos jornais, na televisão…
Quem sabe se até, um dia, nas páginas da Hola,
se casares com uma gaja boa,
…ou na Forbes,
se te tornares um empresário de sucesso
ou assaltares também um banco.
Aposta no clube Bilderberg
para que o tiro não te saia demasiado baixo.
Se não conseguires lá chegar,
paciência,
é o mercado a funcionar…
Veste uma roupa apropriada,
não aquilo que tens lá em casa,
que te faz parecer com ninguém.
Um fato elegante,
daqueles que fazem distinto qualquer borra-botas…
ou, se te ficar apertado nos ombros,
uma fatiota de artista…
Mas segue um tipo!
Vê a televisão, homem!
Os jornalistas e os comentadores servem-nos de bússola
para sabermos o que devemos usar…
as roupas da moda,
a linguagem da moda,
os sentimentos da moda,
a palavra mais usada durante o ano
nas redes sociais…
Vês? Coisas que podes aprender,
para seres parecido com toda a gente.
Não vês aquelas barrazinhas no ecrã
que te dão a percentagem
de quem está de acordo e de quem não está de acordo
que o treinador deve ou não deve perder o emprego,
ou se se deve ou não ajudar um povo que sofre?
Então?
Bastará que estejas de acordo
com a maioria que está de acordo,
para que todos contigo estejam de acordo.
Queres melhor? Consulta o INE!
Para que serve um batalhão de funcionários
a fazer reuniões,
e relatórios, e gráficos
com barras de todas as cores
senão para nos dizer o que é o comportamento-tipo,
sensato, da gente comum?
Que 37% das pessoas usa champô com suavizante,
que 83% das mulheres prefere usar calças
e que 94% dos portugueses pesquisam na internet através
do Google .
O INE está encarregado de nunca vir dizer
que mais de 90% dos que lavaram a cara
depois de uma mão lavar a outra
se suicidaram.
O INE tem rigorosas instruções
e o dever ético
de jamais vir a púbico afirmar
que o guarda fiscal, o homem médio,
que colecciona coisas,
vem de há muito a coleccionar a infelicidade.
O INE está expressamente proibido
de fazer estatísticas sobre os incapazes da vida
que ao longo da história contribuíram
para tornar a vida mais capaz.
Se persistires em continuar a ver a vida ao contrário,
amando a música, o teatro, a pintura, a poesia,
e tantas outras coisas inúteis,
como a justiça ou a fraternidade…
desde já te digo,
serás, não mais tarde,
mas durante toda a tua existência
mais um anónimo incapaz da vida,
porque a vida não é capaz de ti!
Vasco Ribeiro
2005
POEMAS À PARTE
Todos
podemos ler o que os escritores escrevem;
é por isso
que alguns escritores escrevem,
para os
poder ler.
Outros, são
escritores que escrevem
porque não
poderiam deixar de escrever;
não para
serem lidos ou galardoados,
mas para
relaxar a tensão no pescoço,
desapertar
um nó que têm na garganta
e vestir a
alma de chinelos e roupão.
Entre estes
últimos,
encontram-se
muitos escritores que não escrevem,
que sofrem,
por vezes, de fortes contusões no pescoço
e chegam a
sucumbir com a garganta sufocada.
Bastar-nos-á
ir a uma livraria,
percorrer os
corredores, ser enfeitiçado pelas edições dos topos,
com
vigésimas quartas edições, descontos de trinta por cento
e recensões
fantásticas em dois ou três canais de televisão.
E se o escritor
for da televisão, ah?
Sucesso
garantido para uma boa prenda de Natal!
Basta ir ver
as novidades à livraria,
como
qualquer um de nós faz no supermercado
sem levar a
«lista de compras».
Ainda haverá
um dia em que o livro é vendido num pack,
junto com
uma embalagem de desodorizante,
ou, quem
sabe, com uns óculos escudos
ou um
saquinho para as compras.
Milhares de
livros! Podem escolher!...
Eles têm
livros aos quadradinhos,
romances
embrulhados em capas de sonho,
com passarinhos
e raparigas em pose;
romances
policiais que fazem derramar da capa
sangue que
escorre pela prateleira e tinge o chão;
livros de
história, de filosofia, de direito, de economia,
de ciência,
com o cientista na capa de lanterna na cabeça;
livros para
a pequenada com heróis sobrenaturais,
criminosos,
patéticos e inúteis,
com os quais
aprendem nada, muito menos a viver;
livros de
culinária, livros de saúde e de yoga;
livros de
tudo, a falar sobre tudo;…
Livros que
explicam como ser feliz em apenas catorze dias…
E até livros
de poemas…
Até livros
de poemas!…
É verdade,
que existem
livreiros que expõem livros de poemas
ao longo dos
corredores, e nos topos,
que chegam a
ter até setenta por cento de desconto;
quando os
livros de poemas deveriam estar escondidos
numa
prateleira de baixo, ao fundo da livraria,
ou mesmo num
anexo, num lugar reservado,
como os
donos das lojas de aluguer de filmes
têm o pudor
de fazer com os filmes pornográficos.
Sim, que um
livro de poesia é pura pornografia,
é pura
cirurgia.
Deixa os
rins, o fígado, os tendões, as vísceras
E as partes
de baixo à mostra.
Ler poesia,
não é ler um livro; é ler-se.
Ler o que o
poeta diz,
é um acto da
mais profunda intimidade;
é uma
introspecção, um corpo-a-corpo,
que pode provocar
uma paralisia nos nervos
e o derrame
da alma…
Não se
enganem com os falsos poetas
que vos
falam dos ramalhetes rubros das papoilas
e da carne
desventrada dos crisântemos…
Esses,
apenas vos querem inflamar,
Assustar, magoar,
fazer sonhar,
ou, na melhor
das hipóteses, entreter…
A poesia é
aquela que vos fala de coisas
que já há
muito sabeis,
mas que por
falta de coragem, ou de tempo,
não quereis
entender.
A poesia,
quando é poesia,
encarquilhar-vos-á
os dedos dos pés,
far-vos-á
ranger as fontes
e poderá
provocar acidez no estômago,
a par de
outros efeitos secundários…
Quando o
poeta acaba de escrever o poema,
entrega o
seu sémen ao mundo, num indecoroso orgasmo!
Entendem
agora porque a poesia é pornografia,
não pode nem
deve
ser contada em
quaisquer reuniões sociais,
não existe
no cantinho de espera dos cabeleireiros,
não pode ser
contada entre anedotas
e até nem
deve sequer ser lida à luz do dia?
Para ler
poesia é preciso não ter pudor,
o pudor que
se tem, mesmo quando já não é preciso ter.
O pudor,
dizia Dumas,
é aquilo que
se evapora pelo decote das senhoras…
O pudor é
uma das mais poderosas provocações sexuais.
O poema faz
parte da natureza das pessoas crescidas,
já bem
sofridas.
O poema,
como o pudor,
não faz
parte da natureza da criança.
O poeta não
escreve o que vos quer dizer;
o poeta
diz-vos quem é, ele todo;
diz-vos do
que é feito e o que sente.
Acontece que
às vezes aquilo que o poeta sente
é tal e qual
o que você sente,
fazendo-o
descobrir que também em si existe poesia!
Vasco
Ribeiro
2005
TER QUEM ESPERAR
Gostava que
soubesses e pudesses dizer-me:
«quando
passares, por favor não fales à mulher do primeiro andar,
porque tenho
ciúmes dela».
Gostava de
saber e poder dizer-te:
«por favor,
não fales com o teu director comercial,
depois das horas
do expediente,
porque tenho
ciúmes dele.»
Mas nós
nunca soubemos, nem pudemos,
e agora não
podemos, nem sabemos.
O que ainda
nos dá alguma alegria
é os filhos,
sobretudo os
netos,
que se
espantam pela casa fora,
a partir
tudo, a desarrumar tudo
e a
perguntar «porquê» a tudo…
É verdade
que são uma alegria, os netos.
Ocupaste-os
no meu lugar
e eu, de
alguma forma, também os terei ocupado no teu lugar.
Lembras-te
quando foste ter comigo,
a primeira
vez, ao cinema?
À porta do
Monumental?
Ias linda,
cheirosa e sorridente…
Lembro-me
que até achavas graça por eu fumar..
Dizias-me
que o teu pai também fumava
e que fumar
lhe dava um certo charme…
Agora,
exiges que eu me suicide
a fumar
debruçado da janela da cozinha,
a embaciar
os vidros dos vizinhos de cima
e a deitar
cinza na roupa da vizinha do primeiro andar;
aquela de
quem tens ciúmes.
Até que
tinha graça deixar cair um borrão
e
acusares-me de ter feito um buraco
nas cuecas
da vizinha do primeiro andar!...
Lembro-me
que quando chegaste à porta do Monumental,
não sei
porquê,
me fizeste
lembrar um manjerico…
Um
manjerico!...
Uma planta
que só a nós cheira
ou que pelo
menos a nós cheira mais
quando lhe
passamos a mão…
Um
manjerico…
Tinhas um
perfume quente que deveria ser da tua mãe
porque era
muito quente,
mas que eu
achei muito sensual…
Não sei se
foste tu que deixaste de usar esse perfume
ou se fui eu
que, com o tempo, fui perdendo o olfacto.
Lembro-me
que olhavas para mim
com os olhos
muito abertos,
como se tudo
o que eu dissesse fosse uma novidade…
Agora só
falamos no intervalo da novela,
no fim dos
primeiros quarenta e cinco minutos do jogo
ou quando
vamos ao supermercado.
Lembro-me
que tinhas umas unhas assim, grandes,
pintadas de
um vermelho vivo,
que eu,
feito parvo, admirava
como alguém
que nunca tinha visto o vermelho.
Agora o teu
verniz parece mas baço,
como o meu
olhar;
ou sou eu
que não reparo,
como
gostaria de continuar a reparar.
Não faz
sentido este jejum
de palavras,
de sexo e de alegria
por causa de
qualquer coisa e de nada…
Possivelmente,
a mulher do teu director comercial
também não
quer que tu lhe fales,
fora das
horas de expediente…
Provavelmente,
o amante da vizinha do primeiro andar
não gosta
que eu lhe fale, quando passo no patamar…
Provavelmente,
por causa disso,
disso e de nada,
eles estão a
cumprir um rigoroso jejum
de palavras,
de sexo e de alegria…
Provavelmente…
Possivelmente
os nossos filhos e os nossos netos
precisariam
de ouvir as nossas palavras,
desconfiar
do nosso sexo
e partilhar
connosco a nossa alegria…
Ia propor-te
pintares as unhas daquele mesmo tom de vermelho
e pores
aquele perfume…
Eu vestiria
um fato novo e inventaria um ar renovado…
Mas o nosso
Monumental fechou,
deixando-nos
apenas um centro comercial
e uma praça
já sem história, nem glória,
como nós,
que já mal recordamos
como se abriram
as feridas que temos para sarar;
feridas que,
vendo bem,
qualquer
enfermeiro curaria,
mas que nós
já não podemos, nem sabemos curar.
Eu sei que o
teu director comercial te acha graça
porque lhe
entras pelo gabinete
quase tão
fresca
como quando
chegaste pela primeira vez
à porta do
Monumental.
Eu sei que a
vizinha do primeiro andar
é capaz de
me achar alguma graça,
porque o
amante dela é um patife,
tem artroses
e mau génio.
Também é
verdade
que o teu
director comercial
nunca te viu
com aquele roupão
com os
estupores dos coelhinhos cor-de –rosa
e de rolos
na cabeça!...
Nem a
vizinha do primeiro andar sabe
Que a única
coisa que eu tenho de atleta, é o pé!
Esta é que é
a pura verdade,
a verdade
que os engana,
com a qual
também nós aprendemos
a viver
enganados.
O teu
director há-de imaginar que tu não vês novelas,
que tens um
roupão liiindo,
que só
vestes, quando vestes,
mesmo antes
de ir para a cama…
que passas o
jantar a sorrir e a conversar…
A vizinha do
primeiro andar
há-de
imaginar que eu mantenho o charme
vinte e
quatro sobre vinte e quatro horas,
como se
fosse uma cãibra,
e que tenho
erecções olímpicas…
Ela não
sabe, quando me vê no patamar,
que chego ao
terceiro andar sem fôlego,
com os
tendões da esperança a fraquejar.
E sabes
porquê?
Porque
quando chego ao primeiro andar
endireito as
costas, encho o peito
e faço um
sorriso,
quase como o
que tinha
quando te
esperava à porta do Monumental.
No fundo,
faço o mesmo que tu
quando
entras no gabinete do chefe.
Ai, mulher;
como o tempo passa
e nós
aprendemos o hábito de deixar de viver.
Amanhã, vou
vestir um fato novo
e comprar
flores para te oferecer.
Vou
esperar-te, no Saldanha, às seis da tarde,
à hora da
matiné,
à porta do
centro comercial;
e tu levarás
as unhas grandes, vermelhas,
e aquele
perfume quente como o da tua mãe…
Quero que
sejas de novo aquele manjerico
que apenas
eu cheiro melhor,
por o poder
acariciar…
Ao
escrever-te esta carta, consegui compreender
como se
dissipou o tempo, neste terceiro andar.
A partir de
hoje vou esperar-te até morrer.
Aprendamos a
humildade de envelhecer,
porque não
há pior morte no mundo,
do que não
ter quem esperar!
Vasco
Ribeiro
2005
AS MORTES
Nunca se
morre devagar
quando se
morre para sempre;
de uma vez por todas.
Morte lenta
é aquela que nos acontece
depois que
se nasce.
Aquele
pingo-pingo
que cai
sobre a cabeça
dos que se
fazem à terra
e dos que se
fazem ao mar.
Fazer-se ao
céu
é uma outra
coisa;
é
desaparecer!
Alguns
talvez tenham sido cobardes
fazendo-se ao céu de livre vontade,
apenas para
não morrer devagar,
evitando
para sempre o arrependimento.
Morrer de
livre vontade
é chegar ali
e pum!
Já está!
Os que
morrem devagar
continuam a
sentir o cheiro da pólvora;
continuam a
observar no espelho,
a cada cinco
anos,
que o
entusiasmo fica mais baço
e a alma
mais flácida…
Até que o
espelho lhes revele uma pessoa normal!
Morrer
devagar é querer saber e não saber,
precisar de
ter e não ter,
ser e não
poder ser…
Isto sim, é
lento!
Querer
acreditar e já não poder acreditar,
querer amar
e já não saber quem amar,
como se pode
amar,
se se pode
amar…
Isto sim, é
morte!
Esta é a
morte lenta que se espia
sem ter o
privilégio de poder desaparecer.
Ter que
assistir a tudo.
Ali,
especado, feito parvo,
a ver a vida
a falar de nós,
e a decidir
por nós,
como se ali
não estivéssemos.
Outra coisa,
é a morte ocasional…
Como um pôr
do sol,
de que se
ressuscita
mas com um
novo rasgão na carne.
Esta, se não
fizer fazermo-nos ao céu,
é,
normalmente, discreta e anónima;
Não provoca
a abertura da sucessão
naquele
momento,
não desafia
a perseverança dos credores,
nem a cobiça
dos legatários e herdeiros.
Esta é
apenas uma morte íntima,
de que se
pode sobreviver amputado
e preparado
para saber sofrer melhor.
A morte
ocasional é aquela que,
a não ser
sucedida por outra repentina,
apenas traz
mais desilusão, mais solidão e mais frio,
fazendo-nos
agasalhar mais e melhor
esta já
pestilenta morte lenta.
Na
realidade,
na condição
de simples mortais,
qualquer um
de nós pode experimentar,
a dado
momento,
qualquer dos
tipos de morte.
Qualquer um!
Em qualquer
momento!
Seja na
Páscoa, no Natal, nas férias…
mas
sobretudo no dia-a-dia, e no Inverno,
quando mais
gelam os ossos e a alma.
Quando não
pudermos mais calar o que temos para não dizer;
Quando
deixamos de nos surpreender e indignar;
Quando
apenas amamos a saudade;
Quando não
nos restar mais a vulgaridade
nem a
solidão;
Quando,
despojados de qualquer ilusão,
ficarmos em
pelota;
Quando não
tivermos mais um desejo,
nem mais um
beijo;
Quando já
não pudermos esperar, nem esquecer,
apenas
durarmos;
Quando já
não houver mais caminho
e perdermos
o hábito de viver!
Uma coisa é
certa:
Todas as
mortes são a valer,
não as
podemos apenas experimentar!
Outra coisa também
é certa;
existem duas
verdades universais:
cada um tem
as suas próprias mortes
e não há
duas mortes iguais!
Vasco
Ribeiro
1983
ARTE ANÓNIMA
Sei de
génios que não conheço
e que por
isso não recordo, nem esqueço,
que
imortalizam a arte;
a arte
anónima.
Conheço
génios que não sei quem são
que pintaram
gordas esplêndidas,
como as de
Renoir;
que compuseram
sinfonias
que poderiam
ser de Beethoven;
que
escreveram peças
de que
Shakespeare se orgulharia.
Sei que eles
existem
no secreto
mundo da arte,
mas raramente
são vistos à luz do dia.
Escrevem,
desenham e pintam à luz da vela,
até se
acabar o maço
e o cognac conciliar
o sono.
Quando saem de
manhã,
saem de casa
disfarçados,
sem uma
cicatriz e sem glória,
apenas com
um cão sem trela
que dormita
à noite ao seu lado,
espiando o
dono,
e encarregando-se
da recensão da obra.
Não sei quem
são, não sei onde estão,
mas sei que eles
existem!
Existem,
porque a arte continua a existir
para além do
que está publicado.
A arte tem o
seu mundo próprio.
Passa de
mão-em-mão.
Passa de
boca-em-boca.
Passa de
noite-em-noite,
sem que se
possa ver o rosto, o curriculum e a mão
do génio que
não se quis revelar…
para o
mundo;
apenas para
o seu cão,
que toda a
noite se encarrega da recensão.
Cabe ao
pequeno animal apreciar obras
que seriam
capazes de nos arrepiar;
de beleza,
de humanidade,
e até de desgosto de não poder conhecer aquele
rosto
e não poder
ser aquele cão.
Que estes
génios existem, existem!
Sob minha
palavra d’ honra!
Nós é que
não os conhecemos,
não investigámos.
À noite,
pelas mesas dos cafés, pelos bancos dos jardins,
no término
do cais, junto ao mar…
Se virmos
uma pessoa, à noite, na beira do cais,
junto ao mar
e junto a um cão sem trela,
estaremos,
provavelmente, perto de um desses génios,
que vão
buscar o iodo, a maresia e o silêncio
que durante
a noite transformam em obras de arte.
Se lhes
seguirem os passos, noite tarde,
a ele e ao
cão,
terminarão,
talvez, numa rua escura e fria da cidade,
num prédio de
terceiro andar,
onde os
degraus rangem, ao subir e ao descer.
Deixem-no
entrar sozinho com o cão,
tirar a pele
do dia, pôr-se à vontade
e comer uma
lata de sardinhas com massa.
Esperem mais
duas ou três horas,
que o cão
irá tomar o seu lugar
e o génio
vai começar a criar.
Então sim,
quando ele já estiver embriagado,
apanhem-no
em flagrante delito.
Revistem-lhe
a casa,
confisquem-lhe
os poemas, ou as canções ou as telas,
porque ele, coitado,
nem soltará um grito
e talvez
assim possa ser publicado!
Vasco
Ribeiro
1983
DIAGNÓSTICO DA LIBERDADE
Perguntaste-me o que é a liberdade.
Bonita
pergunta!...
E agora,
como é que te vou responder?...
A liberdade
é uma espécie de supositório
que se mete
pelo cu acima,
das meninas,
e dos meninos,
e eles, a
dada altura,
começam a ser
diferentes,
e a ter
ideias extravagantes…
Não, estava
a brincar!
Agora a
sério!
A liberdade
é uma estirpe de vírus,
altamente
intrusivo,
que habitualmente
se aloja no cérebro
de animais
irracionais,
mas que
também pode infectar
alguns seres
humanos.
Não todos!
É preciso,
para tal,
que eles
apresentem algumas fraquezas
e reúnam
algumas predisposições;
biológicas,
morfológicas e psicológicas.
E, mesmo
assim, não é garantido!
Primeiro,
não podem ser demasiado homens.
Depois, não
podem ser demasiado mulheres.
Não podem
ser crianças,
mas têm que não
ter parado de crescer.
Apresentam
uma forte tendência para saber
e para
acreditar;
raramente
para desconfiar.
Batem-se por
razões, ideias e sentimentos
como se de
uma dose de feijoada se tratasse.
Têm tendência
para sorrir e rir, mesmo ao acordar.
Denotam uma
personalidade e uma simplicidade
normalmente difíceis
de entender;
podem
apresentar sinais cinésicos invulgares
e, não
raramente, sinais proxémicos exacerbados!
Manifestam,
na maior parte dos casos,
a megalomania
de poder com o mundo,
de sofrer
com o mundo…
Pior, chegam
a querer mudar o mundo!
Têm
normalmente tendência para amar;
Amar os
homens, amar as mulheres,
os pássaros,
os peixes, as flores…
tudo o que
mexa e o que não mexa…
Aliás, as
estatísticas têm desde há muito revelado
que o vírus
se desenvolve particularmente
em ambientes
de artistas, de escritores, filósofos…
Não quer
dizer que não possa afectar
os que se
dedicam às ciências,
mas estes… é
que são o diabo…
Sobretudo os
poetas;
esses, coitados,
têm sido dos mais atingidos.
A dada
altura põem-se a dizer
que as
plantas também têm alma,
põem pedras
a falar,
dizem que
deveríamos ser todos irmãos, felizes
e mais não
sei o quê…
Enfim…
De uma
maneira geral, é isto!
Se algum dia
sentires alguns destes sintomas,
não digo um
ou dois,
três ou
quatro destes sintomas,
corre ao
médico de família
e pede uma
consulta urgente,
porque
corres o risco de estar infectada
pela
liberdade!
Vasco
Ribeiro
1983
A CIDADE E O CAMPO
Tu aqui?
Não podias
ter escolhido outro sítio,
que não
aqui?
Aqui?
Ainda eu..
Que tenho os
poros intoxicados de dióxido de carbono,
que tenho o
corpo macerado de aljubarrotas e quimeras,
os olhos
congestionados de mulheres nuas,
e quase
nuas,
amigos e
vizinhos que têm saudades de si próprios
e a alma
desventrada, ao abandono…
Agora, tu?
Que tens no
jeito a frondosidade dos penhascos.
Tu, que tens
nos olhos o mistério das coisas simples;
que trazes
nas mãos as estrias do trigo.
Tu, que és
sedutora e irresistível
quando
escondes de pudor a tua vagina peluda
e depois
gritas de prazer, como uma selvagem.
Tu, que
cheiras e sabes a amoras…
Repara no
teu jeito desajeitado
com esses
saltos altos, a descer a avenida…
Tu tens pés
de andar descalça na giesta.
Vê esse
sorriso pálido que convencionaste;
que já não é
o de duas maçãs vermelhas
que
ruboresciam e matavam de desejo
quando
contagiavas com a tua gargalhada.
Não queiras
ser exactamente igual aos da cidade,
quando a
cidade tem falta de gente como tu.
Não queiras
ser igual a toda a gente,
porque toda
a gente é exactamente igual a ninguém!
Ninguém!
Todos os
melhores salões de beleza da cidade
aplicam
botox para fazer maçãs vermelhas como as tuas.
Todos os
melhores cirurgiões plásticos da cidade
fazem
implantes para ver peitos rijos e fartos como os teus.
Todas as
revistas dos escaparates da cidade
recomendam
seis truques para saber seduzir, como tu…
Na cidade,
ninguém,
absolutamente ninguém,
cheira e
sabe a amoras, como tu!
Digo-to eu,
que já comi
de todos os frutos
e o pão que
o diabo amassou.
Poderás
aprender todos os truques e os tiques,
de
dactilógrafa, advogada, secretária,
manicure,
motorista, engenheira,
prostituta,
professora, cabeleireira…
Mas perderás
esse teu cheiro a campo,
Esse sorriso
de alfazema…
Terás os
poros com CO2, como eu.
Terás o
corpo macerado de vitórias e quimeras, como eu.
Aprenderás a
solidão de domingo, num centro comercial
e terás
saudades de ti própria…
Volta para a
seiva que te brotou.
Volta para
ao pé das coisas que são simples,
naturais,
genuínas e belas,
porque tu és
tão parecida com elas…
Eu sei que
vou seduzir-te,
mas, por
favor, não te apaixones por mim;
diga eu o
que te disser,
faça eu o
que te fizer…
Eu já não
sei ter tão pouco como tu.
Eu já não
tenho nem paladar, nem olfacto, nem
forças
para esse
cheiro a rosmaninho!
Vasco
Ribeiro
1982
QUE OS SINOS DOBREM
Que os
sinos dobrem
quando os
teus desejos
são da cor
do teu sorriso.
Que a noite
fria aqueça
com o abrir
dos teus lábios
e a carícia
das tuas mãos.
Que o
instante seja eterno
e a
eternidade um momento
de volúpia
e paz.
Que os
sinos dobrem
e dobrem
e dobrem,
como um
orgasmo bestial
e
carinhoso.
Que os teus
desejos se realizem
tão-só
por saberes
dar de ti
o que em ti
falta
quando não
o podes dar.
Vasco
Ribeiro
1977
MOCIDADE PORTUGUESA
Sabemos que nenhum de nós nascia fraco ou forte.
Todos nascíamos
pequenos, frágeis e dependentes,
sôfregos de
uma mama e de um destino.
Depois, éramos
entregues pela mão à nossa sorte,
rebentavam-nos
os pêlos, as borbulhas e os dentes,
aprendíamos
os sítios dos rios, o caos e um hino.
Éramos quase
todos pepinos torcidos de pequeninos,
quando chegava
a altura certa para nos torcer,
e fazer
calibrados na craveira da bitola nacional.
Assim se
preparava, então, ninhadas de meninos,
manadas de praças,
magalas e capitães para morrer,
servindo,
heroicamente, este pérfido desígnio de Portugal.
Depois chegavam
os conselhos, os conselhos sábios,
de todos os
que já tudo tinham aprendido;
a vida, a
ciência, o sexo, a literatura, a religião
e a arte lusitana
de saber cerrar os lábios,
calando
fundo os sonhos que não tinham vivido
e que traziam cravados, como rasgões, no
coração.
Um dia
puseram-me a desfilar, como um espantalho, pela avenida,
com o
bivaque castanho nos cornos e as quinas ao peito,
esperando que
eu cantasse, inflamado, o hino da mocidade.
Cerraram-se-me
as duas mãos, os lábios e a vida,
sentindo que
me cheirava a morte aquele leito
que de seu
nome se chamava da Liberdade.
Em vez de
marchar ao som da banda e dos rufos de tambor,
trotava
avenida abaixo, trauteando um poema
de José
Maria dos Reis Pereira, de Régio disfarçado.
Dizia para
mim: hei-de ir para qualquer sítio, seja onde for.
Sabia que
também não iria por aí, tendo pena
de vir a
deixar este ventre fecundo, desventrado.
Ai Aníbal
Ribeiro, meu tão bendito pai,
que me
deixarás da vida esta herança
de saber separar
do joio a liberdade.
Sabemos
ambos para o inferno que este país vai
quando se
castra aos homens a criança,
no pelotão
de fuzilamento da portuguesa mocidade.
Vasco
Ribeiro
1973
FOGE LIBERDADE
Acostumei-me
a este cimento armado,
a este
escombro de obséquios sociais,
onde gente
que corre para todo o lado
me espanta
com tecnologias bestiais.
Uso este
fato que me faz parecido
com todos
aqueles que se parecem,
porque ser
diferente aqui, pode ter o perigo
de não poder
ver o sol, quando os outros amanhecem.
Sabes agora
porque uso este fato apertado,
como o
hábito que sabe distinguir o monge…
Este é o
secreto passaporte de refugiado,
de quem tem
endereço aqui, mas mora longe.
Apenas a ti
posso fazer esta confissão,
desabotoando
a alma e pondo-me à vontade,
porque se
alguns ainda conseguem ser quem são
a ti o devem,
humilde e exilada liberdade.
Corre
liberdade, foge para qualquer outro lugar,
devidamente
disfarçada e sem bilhete de identidade,
que Shakespeare
dizia que o coração fala com o olhar
e tu és toda
feita de sentimento e de verdade.
Não me
deixes, mas desaparece daqui
e diz-me
para onde te posso escrever.
Darei a
morada apenas a quem acreditar em ti
e a quem, a
hipotecar a alma, prefira morrer.
Mas foge
daqui!
Confunde-te
com um pedinte, ou com Zeus,
arranja uma
morada incerta, ou vive a monte,
mas não te
deixes apanhar, por amor de Deus,
antes que a
polícia política te encontre.
Podes
esconder-te no meu peito, como te dizia,
porque aqui
terás sempre o teu lugar,
ou mora no
lugar a que chamam a utopia
porque é à
utopia que nós vamos acreditar.
Vasco
Ribeiro
1972
S E
M E N T E / SEMENTE
A devolver no estado em que se
encontrar
Para a vivermos em cada instante.
S E M E N T E
que não gera nos homens
Mas nas mulheres
Para as amarmos.
S E M E N T E
que nasce das pedras
E de todas as coisas ditas brutas
Para aprendermos a natureza.
S E M E N T E
do sexo, da nostalgia e da paixão,
S E M E N T E
da semente, da alquimia e até do voo das aves
Para reinventarmos a utopia.
S E M E N T E
da aristocracia, da autocracia
Da plutocracia e da democracia
Para sermos livres.
S E M E N T E
do clássico, do antigo
Do moderno,do post-moderno e do
contemporâneo
Para brindarmos o eterno.
S E M E N T E da vida, da violência, da solidão e
da angústia
S E M E N T E
da fé, da noite, da morte,
S E M E N T E
da própria sorte...
Para entendermos o acaso e a
criação.
S E M E N T E
do que temos, do que inventamos,
Do que fica e do que resta,
S E M E N T E
de tudo o que não presta
E do que somos...
Bendita é a Vossa mentira
E bendito é o Vosso sémen
Senhor.
Benditos seremos nós
Que Vos criámos.
Vasco Ribeiro
1972
MENINAS – FELIZMENTE
(escrito e sofrido
antes de partir)
Não se morre
um pouco cada dia
e a
esperança sabe sobreviver à desilusão,
quando temos
este sentimento que nos guia,
esta quase
eterna sede de deserto de liberdade
que já secou
a gente do campo e da cidade
e já não
aguenta mais o fardo da opressão.
Passaram-se
tantas conversas e serões.
Passaram-se
tantos dias, tantas vozes,
artigos,
anedotas, poemas e cantigas,
tantos
bilhetes de mão em mão.
Desejou-se
de todos os coitos raparigas,
Para não vir
a poder servir a nação!
Não queremos
mais «meninas – felizmente»,
para não ir
à tropa.
Também
queremos tomates que sirvam,
mas não para
vazar e estilhaçar no ultramar.
Por isso
estamos dispostos a desobedecer,
a tudo o que
ainda tiver que ser,
porque nós somos
feitos de partir, e não dobrar.
E se o preço
é a morte em África
ou o
inevitável exílio em França,
para que nos
sobreviva a esperança
e a liberdade
continue a ser mulher…
Então aqui
estou
para ser o
que sou.
Para o que der
e vier!
Vasco
Ribeiro
1971
TCHIM-TCHIM
(antes de deixar o
país)
Recito um
poema de indignação.
Um cocktail
de amargura
na mão
direita
e faço
tchim-tchim
a tudo o que
não quero.
Já não posso
viver de esperança
ou de
ilusão.
Só me resta
fugir,
mas prefiro sorrir… ou desespero!
Vasco Ribeiro
1970
NO MEU PAÍS
No meu país
passeia-se lado a lado,
entre a vida e a morte,
de braço dado,
na corda do tempo... que cansa...
Sobramos de nós
Envoltos uns nos outros;
Amando irremediàvelmente
o que resta de nós próprios.
No meu país
passeia-se lado a lado,
entre a vida e a morte,
de braço dado,
na corda do tempo... que cansa...
Aprendemos a solidão.
Esse bloco amarrotado
de bolso de camisa de guarda
fiscal.
Desabotoamo-nos lentamente
com uma confiança estranha
e uma paz inevitável,
como se deixássemos a camisa de
xadrez na praia
para nos fazermos ao mar.
No meu país
passeia-se lado a lado,
entre a vida e a morte,
de braço dado,
na corda do tempo... que cansa...
No meu país
há todos os dias,
às seis da tarde,
um autocarro que não passa,
um homem que não chora
e uma mulher que não dança...
Há em cada cinzeiro
um cigarro mordido e amachucado
por um sonho
que se não viveu;
A mulher que se espera,
a outra que passa
ou aquela que se perdeu...
Mas...
No meu país
há todos os dias,
às seis da manhã,
um sol que renova,
uma janela que se abre
E uma confiança...
Que passeia lado a lado,
entre a vida e a morte,
de braço dado,
na corda do tempo... que cansa...
Vasco Ribeiro
1969
A MULHER FEIA
Ai, Elsa…
Descalça-te
para poder beijar-te os pés.
Não, por
favor, não tires o teu vestido…
Agora quero
só beijar-te ao pés,
lamber-te os
dedos,
para saber
os teus segredos.
Olha-me este
mindinho,
que
pequenino…
E que
perfeição estes artelhos…
Como podem
os homens
excitar-se
apenas a partir das coxas,
se há obras
de arte, como a tua,
dos pés até
aos joelhos.
Agora
deixa-me deslizar os dedos
entre os
teus cabelos…
Outra vez…
outra…
que sedoso…
Não! Não
tires!
Quero
levantar-te o cabelo
e passar os
dedos no pescoço…
Isso, assim…
Ai, Elsa…
Tu és tão
feia…
Tão
maravilhosamente feia!...
Isso, assim…
Teria sido
um crime teres sido bela;
conhecer-te
num filme pornográfico
ou na capa
de uma revista…
Com os
lábios esticados,
as mãos nos
quadris,
sem poder
ver-te os dedos dos pés
e sentir-te
o cheiro do pescoço.
Quanto as
mulheres belas não dariam
para ter
estes joelhos?...
Muito
provavelmente não dariam,
porque elas
não sabem que têm joelhos…
Estas covinhas…
Olha como o
teu corpo fala,
em
convulsões…
As mulheres
belas não têm convulsões!
Têm
jantares, festas, fotografias,
montes de
fotografias,
em que
exibem glândulas fantásticas
ou tetas de
silicone…
Mas não
estes bicos cheios,
esta curva
que nasce do peito
e aponta
para o céu…
Isso, assim…
Ai, Elsa…
Se te não
quisesse,
propunha-te
para um museu;
um museu só de
mulheres feias,
maravilhosamente
feias,
que haveria
de vir a ser visitado apenas
por poetas e
poucos outros com imaginação…
E eu seria o
teu guarda, o guarda do museu.
Ali,
sentado, atrás da secretária, de boné…
A admirar-te
os dedos, os cabelos, as ancas…
Corroído de
ciúmes
quando se
aproximasse um homem
que soubesse
apreciar uma mulher feia,
maravilhosamente
feia,
como tu!
Passaria o
dia excitado,
a transpirar
pelo boné abaixo
e exaurido
de ciúmes
quando
entrasse um grupo de poetas
que se
pusesse a apreciar-te…
Teria,
então, para me acalmar,
de ver
revistas pornográficas, cor-de-rosa e de moda,
com mulheres
belas e de proporções exactas,
até ficar em
sossego…
Ali, sentado,
de boné, atrás da secretária…
Mas tu nunca
poderias ir para um museu
porque os
museus são para as proporções exactas,
que pouco
têm para dar…
E tu
entregas-te, sem proporção,
de forma
desmedida,
como só as
mulheres feias se sabem entregar…
Ai, Elsa…
Não sei nem
quero saber do que tu és feita;
se és obra
de Deus ou de Satanás.
Sei que és a
mulher perfeita
da
fotografia que ainda comigo trago na carteira!
Vasco
Ribeiro
1966
LÁGRIMAS
Ai, se eu
pudesse gritar
por dentro
da fúria
do vento que
passa…
Ai, se eu
pudesse acudir
por dentro
das vidas
vividas com
raiva
que o tempo
ultrapassa…
Ai se eu
pudesse violar
de punhos
cerrados
estas
fronteiras…
E de olhos
inchados
pudesse
esquecer
as lágrimas
caindo…
Oh, triste
madrugada
Que me viste
nascer, sorrindo!
Vasco
Ribeiro
1962
UMA NOITE CALMA
Uma noite calma.
Uma cadeira senta há anos
num canto em que a vida se esqueceu,
ao nascer do sol ou ao desfalecer do
dia.
Em cada dia,
um fato cinzento e um copo de brandy
e uma mesa tosca que avassalou no
tempo
uma refeição comum.
O bater das horas constantes
no ritmo da sobrancelha ao fazer
tricot,
numa cadeira de balouço que não
parou.
A figura inerte duma pintura insólita
de heróico e grotesco,
que podia ser qualquer homem lendário
ou a lenda do homem que não existiu.
Em cada dia,
uma noite calma.
O escrever da pena duma mão cansada
que pinta de negro esbatido
uma recordação de infância.
Uma infância calma.
O silêncio dos deuses ou o temor do
homem
que não chegou a falar:
perplexo ou prostrado.
O recitar de poesias
que se desvaneceram da decadência da
alma
ou no êxtase da existência.
Uma frase contígua que se perdeu
No eco do tempo.
Uma recordação que repousa
na irrealidade da memória.
A música triste dum aparelho que não
toca…
e o fantasma de um homem de fato
cinzento
e um copo de brandy,
a recitar poesia
que se perdeu no eco do tempo.
Vasco Ribeiro
1962
ROSTOS
Rostos
inertes.
Rostos
sufocados.
Rostos
inóspitos,
duros,
cruéis.
Pessoas
desencontradas,
cruzadas,
amantes,
com sorrisos
desenhados a lápis…
Corpos
dissimulados.
Rostos.
Sombras.
Silhuetas.
Jantar.
Sobremesa.
9 horas.
Vasco
Ribeiro
1961
DA MINHA JANELA
Casas,
é tudo o que
vejo da minha janela.
Abro o
livro,
passeio
algumas páginas
e levanto-me
para ler as entrelinhas
à janela.
Mas só vejo
casas, multidão, barulho.
Volto para o
meu livro que fala de formas concordantes,
de mulheres
de antes,
de um novo
dia
e de gente
que ama.
Pareceu-me
pousar uma pomba no umbral da janela
e fui
espreitar…
Não havia a
pomba,
mas gente
que passa,
carros que
gemem,
árvores que
gritam,
gente que
odeia,
pássaros
assustados,
raparigas
que choram,
cabeças que
abanam
e o vento
que brame
nas velhas
vidraças da humilde capela
que agoniza
ao fundo
o triste
cenário da minha janela.
Vasco
Ribeiro
1961