segunda-feira, 18 de janeiro de 2016







  
O MEU POEMA




Sem que esperasses,

a dada altura subi ao palco
e fui dizer um poema meu,
que tinha guardado,
num papel antigo e amachucado.
Vi do palco, nos teus olhos pequeninos,
uma expressão de surpresa.
Eu sei que não sabes que eu vi,
mas eu vi.
Depois sorriste,
eu vi.
Confessa que sorriste.

Não me conhecias assim,
eu sei,
por isso quase emudeceste
e te sentiste intranquila,
por não me saberes taxinomicamente conformar,
por achares que cada um é como cada um
e que aquilo que eu tenho é meu,
que aquilo que eu escrevo é meu
que aquilo que eu sinto é meu,
e eu sou
como cada um.

Depois perguntaste-me
De quem era o poema
e porque não tinha dito
que era meu o poema,
se era meu o poema.

Querias que eu tivesse dito
que o poema que eu escrevi
fui eu que escrevi.
Porquê?
Dizer-te que ele é meu,
é coisa que não posso.
Para quê dizer-te que ele é meu
se por um instante,
quando to disse,
sentiste que afinal ele é nosso.


Gostaste dele
e porque gostaste dele
gostaste mais de mim.
Gostaste de mim porque o dizia,
da forma como o dizia…
sem saberes que o escrevi.
Ao gostares do que eu dizia,
depois da tua surpresa
e do teu sorriso,
de quem tu mais gostaste, realmente,
foi de ti!

Não peças ao poeta
para dizer que é seu o poema.
O poeta sabe que é dono de coisa nenhuma;
que as palavras, os sentimentos,
os encantos e desencantos
e até as vírgulas e os pontos
já existiam antes de ele nascer.
Ele apenas junta palavras,
arruma letras,
e põe flores nas jarras,
em vez de as usar
para a correspondência não lida.

Se o poeta te disser um poema
que não é dele,
nem nunca poderia se dele,
porque as palavras,
os sentimentos,
os encantos,
os desencantos,
as vírgulas
e até os pontos
nunca poderiam ter sido arrumados por ele,
quando começar a dizer-te o poema
- ele diz-te quem o escreveu.

Quando começares a ouvir um poema
não te importes com quem o escreveu.
Depois de te surpreenderes,
Sorriste…
Se me perguntaste, depois,
porque te não disse
que o poema era meu,
porque gostaste daquilo que escrevi…
fico feliz, como poeta,
sentindo que foi uma missão que cumpri:
permanecer pedinte da tua surpresa
e do teu sorriso
e ficar ditoso
por ver nos teus olhos pequeninos
que ao ouvires o poema
gostas mais de ti!

Disse-te um poema, mulher.
Disse o que te disse
e também o que te não disse,
quando juntaste sentimentos
como eu as palavras
do poema que escrevi e que te li,
podendo ter sido escrito
por outro qualquer.

Apenas te li um poema, mulher.
Não queiras saber todos os meus segredos
de repente.
Primeiro, porque não tenho segredos,
e se os tivesse,
nunca poderiam ser
Para serem lidos de repente.

Eu escrevo poemas, mulher,
e escrever poemas não é como dissecar rãs.
Um poeta normalmente não tem segredos;
um poeta normalmente é um segredo;
se deixasse de o ser,
deixava de ser quem é.
Deixava de ouvir acordes
em pedras que dizes brutas
e até de encontrar poesia nas rãs.
Deixava de ler para ti
um poema que escreveu
só para ter a felicidade de te ver feliz
quando to leu.

Ser poeta não é uma virtude;
é uma doença.
Não queiras dissecar um poeta
como se disseca uma rã,
para lhe separar os órgãos.
Ele é todo coração!

O poeta é feito ao contrário;
é um desajeitado que tem dentro de si
deus e o diabo,
uma criança, um homem e uma mulher.
Ele é um aborto!
Ele vê coisas nos sítios de outras coisas
que, diga-se a verdade,
quando ele to diz,
às vezes também tu vês.

Ele diz coisas, escreve coisas, sente coisas
que lembram a deus e ao diabo;
aos dois, em simultâneo,
quando estas divindades são para ti
uma de cada vez.

Queres conhecer deus?
Para conhecer deus,
é preciso primeiro
ter uma longa história de sexo com o diabo.
O diabo está no sexo;
por isso é que muitas vezes
o sexo é que é o diabo!

Mas o diabo não tem só a ver com sexo,
não senhor!
O diabo tem também a ver
com as desgraças,
e as graças,
com as aventuras,
e as desventuras,
e a saúde,
e a doença,
e a tristeza,
e a alegria
e…
puta que o pariu,
que o diabo tem a ver com tudo!

É um deus;
está em todo o lado.
Como nós,
quando estamos em todo o lado;
é como nós, quando somos deus.
Sim, deus,
não forçosamente a divindade,
um deus assim da nossa idade
e feitinho à nossa semelhança…
com este narizinho,
e estas orelhinhas…
Como nós!
Moldado com esta merda de barro
que, às vezes, faz coisas magníficas.

Queres falar com deus?
Fala com o poeta!
Ajoelha-te e diz-lhe
por aquela grelhazinha
o que te dói.
Se ele for sincero,
vai responder-te, depois,
que também a ele às vezes dói tudo.
Não que lhe dói aqui e ali,
dói-lhe ver-te, também a ti, de joelhos,
e quase sempre lhe dói a alma
por não ter tido a oportunidade
de contar todos os seus desejos.

Fala com o deus, que,
como o diabo,
está em toda a parte,
e em todos,
e por todos,
e, que, por tradição,
todos,
rigorosamente todos,
clamam
e cantam
e rezam…
Valha-me deus!
Deus queira que sim!
Deus queira que não!
Qualquer dia,
se deus quiser!

Fala com o poeta,
fala com deus,
fala com o diabo,
fala com toda a gente
diz tudo
tudo,
tudo,
como os malucos.
Não faças como o poeta
que apenas diz o que lhe vai na alma,
seja verdade ou mentira;
apenas e só
o que lhe vai na alma.

Fala bem alto,
a plenos pulmões;
não em rima
e em versos.
Fala como o diabo quer,
com o peito aberto,
as mamas para cima,
mas fala, mulher.

Não fales como os poetas,
como deus quer,
dos sentimentos
dos lamentos
e de tantos tormentos,
que num dia de sol
e em momentos de fortuna
ninguém acredita…
se deus quiser!

Se falares baixinho
e escreveres poemas, como eu,
corres o risco de adoecer;
que esta lepra se te pegue
e te comecem a doer as dores do mundo.

Pior,
podes tornar-te uma poeta
e começares a dizer toda a verdade
e seres toda coração.

Se isso te acontecer, mulher,
podes não poder voltar atrás.
Começas a ver ninfas
e a ver nas coisas
o que as coisas não querem que se veja…
Começas a ver nos sorrisos
o estado de alma
e entendes que não te podem dissecar
como a uma rã,
porque te tornaste toda coração!

Pior ainda,
podes correr o risco de conhecer a liberdade
e não querer menos;
querer saber tudo,
querer sentir tudo,
querer viver tudo,
tudo ou nada!…

E, então, dir-me-ás um poema teu,
sem me dizeres que é teu.
Compreenderás que o proprietário
pertence à sua propriedade;
é, irremediavelmente, um pobre titular.

Nesse dia,
se ele chegar,
ler-me-ás um poema teu,
e se vires que eu me surpreendo,
que me emociono,
e sorrio,
pensarás, sem mo dizer,
que o poema que escreveste
agora também é meu!

  
Vasco Ribeiro
2016  






INCAPAZES DA VIDA


Longe dos comedidos e remediados
funcionários  administrativos desta vida,
prefiro os que arriscam
por uma alcova, uma razão ou um sonho.
Destes, prefiro os que viveram
e viveram intensamente
mesmo perdendo a fé, a glória e o dinheiro,
que arriscaram sempre,
como se cada dia fosse o último,
o melhor e o derradeiro.

Longe dos que não bebem,
não fumam
e não fodem,
dos que não se comprometem
e aprenderam a arte de saber viver.
Longe do hábito burguês e do olhar sibilino,
prefiro, de longe, aqueles que não têm
e aqueles  que não podem,
mas que irão sempre a jogo
até que as veias lhes adormeçam
e o coração definitivamente pare.
Os que para si mentem o que sentem
apenas para confortar
aqueles que não têm e não podem
e deixam de acreditar.

Prefiro estes Quixotes de cordel
Com alma desprendida.
Prefiro-os  como amigos e como inimigos,
mestres anónimos e clientes de bordel,
incapazes da vida, mas senhores do seu destino.

Ai, incapaz da vida
Que não sabes viver a vida
como um qualquer guarda fiscal.
Que não coleccionas moedas nem estampilhas,
Que não sabes da vida dos outros,
nem dos artistas,
nem dos mais ricos…
E sabes porquê?
Porque não lês a revista Forbes,
porque não frequentas os consultórios
onde poderias comentar com a senhora do lado
as páginas grávidas da Hola;
grávidas de talentos,
grávidas de estrelas,
grávidas de meninos que nascem nos casais reais.
Tu nem sabes que a Noémia,
do segundo andar esquerdo
pôs os cornos ao marido…
Coisa que toda a gente no bairro sabe…

Ai, incapaz da vida,
assim não vais longe!
Assim ficarás em ti, igual a ti, com as tuas ideias,
em vez de teres as ideias dos outros,
as aventuras dos outros, que conhecem outros
que lhes emprestam aventuras.

Tu não leste, nem aprendeste
que “o importante não é viver; é saber viver”!
Disto tu sabes nada!
Não andaste nesta faculdade
ou não foste às aulas
e andaste por aí distraído
a falar de ideias.
Sempre as ideias…
O belo, o justo, a liberdade…
Que interessam o belo, o justo ou a liberdade,
se não servem para uma panela de cozido?
Ah?
O que interessa são as coisas,
As coisas simples, comesinhas.

Repara na palavra: c o m e   s i n h a s.
Coisas que se pode comer em mesinhas.
Mesinhas tapadas de naperons de crochet;
mesinhas com toalhas aos quadrados,
onde se come linguiça e se canta o fado…
Coisas de gente do dia-a-dia,
que vota nos candidatos por razões precisas
e concisas.
No candidato que tem olhos verdes e muito carisma,
no da madeixazinha branca, que lhe fica tão bem…
Agora as ideias…
Só podia ser teu!...

Vês porque continuas incapaz da vida?
Vês porque poderias continuar sozinho
se estivesses sozinho
em vez de estares com o mundo?
Vês no que dão as ideias?

Aprende os acordes de uma chouriça com água-pé,
o andamento de um tinto da Bairrada,
a paleta de policromia
de uma tarde de futebol ao domingo
e a beleza do tablier com o novo GPS…
Acorda, homem,
acorda para as coisas da vida,
que a vida não é para viver,
mas para saber viver…

Não desacordes com aquele senhor
que aquele senhor é muito rico!...
Não digas que não,
porque se está mesmo a ver que vão todos dizer que sim
depois do discurso, de depois do almoço.
Aprende a viver, homem!…

Não te aflijas com os males do mundo,
que o mundo não tem rins,
nem próstata,
nem ovários…
O mundo até está a ser programado
para não ter doenças;
para ser feito de tijolos, cimento e pedra;
coisas que não ardem,
que não doem…
Doenças? Só as que forem programadas
pelos laboratórios e a OMS, e coisa pouca:
vacas loucas,
aves com gripe…
Como vês, tudo coisas com as quais não tens que te inquietar.
Os laboratórios e a OMS sabem exactamente
o que, para não te preocupares,
tens que gastar!

Acorda Amigo, acorda Irmão…
Porra, acorda para a vida
que não é para ser vivida…
é para gastar!

Queima os livros que tens a encher-te a casa,
a fazer pó e a criar traça.
Aqueles que leste,
paciência,
já não podes destruir, porque estão em ti
e nas tuas ideias,
mas acaba com os outros.
Deixa só os de quadradinhos
e os de culinária
e os dos Cinco…
Os dos Cinco, não!…
Que o Zeca andou aí a dizer
“venham mais cinco”…
Guarda aquela enciclopédia encadernada
que nunca abriste
mas que fica tão bem na estante.

Desiste de viver
e daquela coisa que dizes que trazes na alma, homem...
O que já viveste, paciência…
Começa a aprender a viver,
a saber que “uma mão lava a outra”
e as duas podem lavar-te a cara
que nunca mais reconhecerás
quando fizeres a barba…
É como se fizesses uma operação plástica
que te permitirá veres no espelho
um homem médio, do dia-a-dia,
que colecciona selos e estampilhas
e não borboletas e poemas,
e todas essas paneleirices…

Se quiseres decorar, põe piercings;
e se quiseres pintar, faz tatuagens.
Tens pescoço, braços, pernas, peito, costas e pénis
para quê?
Pinta-te, escreve-te,
Não andes a gastar guardanapos
dos desgraçados dos donos dos restaurantes
a escrever poemas e a fazer desenhos.
Um dia, algum empregado de café
pode guardar algum dos teus desenhos
ou até mesmo algum dos teus poemas
e tornar-se, também, incapaz da vida.

Compreendeste bem!
É verdade que essa incapacidade pode contagiar-se.
Pode bastar três dias sem ver televisão,
seis meses a ler livros
e ouvir as letras de meia dúzia de canções subversivas
e zás…
começar a nascer outro incapaz da vida.

Não vás para a falésia, sozinho,
ouvir o murmurar do mar.
A praia é para tomar banho em Junho, Julho e Agosto,
para bronzear e ver gajas boas quase nuas…
Ver o mar?...
Escrevinhares poemas a olhar o mar,
num blocozinho ridículo,
com a alma desabotoada, ali ao frio?
O teu lugar é em casa
como um bom chefe de família.
O teu lugar é a tomar uns copos
com os chefes e não-chefes de família,
a jogar às cartas com um palito entre os dentes,
como qualquer macho que é macho.

Desce a bandeira e guarda os filósofos,
que as filosofias nunca deram de comer.
Atira-te à informática,
que parece ser uma carreira de futuro.
Entra no empreendedorismo
e nas novas oportunidades.
Faz croquetes e rissóis, para vender,
ou inventa uma máquina para descascar batatas
enquanto se faz ioga;
coisas úteis…
Agora, as ideias?...
Vou-te dizer…
Com as ideias não vais longe!

Se te for demasiado difícil desistires
dessa coisa das ideias
e chegares mesmo a ter alguma recaída,
podes inscrever-te numa associação, num partido;
eles têm sempre uma grande colecção de ideias
entre as quais podes escolher.
Arranjas amigos,
combinas piqueniques
e, com sorte, podes ser fotografado,
vir nos jornais, na televisão…
Quem sabe se até, um dia, nas páginas da Hola,
se casares com uma gaja boa,
…ou na Forbes,
se te tornares um empresário de sucesso
ou assaltares também um banco.
Aposta no clube Bilderberg
para que o tiro não te saia demasiado baixo.

Se não conseguires lá chegar,
paciência,
é o mercado a funcionar…
Veste uma roupa apropriada,
não aquilo que tens lá em casa,
que te faz parecer com ninguém.
Um fato elegante,
daqueles que fazem distinto qualquer borra-botas…
ou, se te ficar apertado nos ombros,
uma fatiota de artista…
Mas segue um tipo!
Vê a televisão, homem!
Os jornalistas e os comentadores servem-nos de bússola
para sabermos o que devemos usar…
as roupas da moda,
a linguagem da moda,
os sentimentos da moda,
a palavra mais usada durante o ano
nas redes sociais…
Vês? Coisas que podes aprender,
para seres parecido com toda a gente.

Não vês aquelas barrazinhas no ecrã
que te dão a percentagem
de quem está de acordo e de quem não está de acordo
que o treinador deve ou não deve perder o emprego,
ou se se deve ou não ajudar um povo que sofre?
Então?
Bastará que estejas de acordo
com a maioria que está de acordo,
para que todos contigo estejam de acordo.

Queres melhor? Consulta o INE!
Para que serve um batalhão de funcionários
a fazer reuniões,  e relatórios, e gráficos
com barras de todas as cores
senão para nos dizer o que é o comportamento-tipo,
sensato, da gente comum?
Que 37% das pessoas usa champô com suavizante,
que 83% das mulheres prefere usar calças
e que 94% dos portugueses pesquisam na internet através do Google .

O INE está encarregado de nunca vir dizer
que mais de 90% dos que lavaram a cara
depois de uma mão lavar a outra
se suicidaram.
O INE tem rigorosas instruções
e o dever ético
de jamais vir a púbico afirmar
que o guarda fiscal, o homem médio,
que colecciona coisas,
vem de há muito a coleccionar a infelicidade.
O INE está expressamente proibido
de fazer estatísticas sobre os incapazes da vida
que ao longo da história contribuíram
para tornar a vida mais capaz.

Se persistires em continuar a ver a vida ao contrário,
amando a música, o teatro, a pintura, a poesia,
e tantas outras coisas inúteis,
como a justiça ou a fraternidade…
desde já te digo,
serás, não mais tarde,
mas durante toda a tua existência
mais um anónimo incapaz da vida,
porque a vida não é capaz de ti!


Vasco Ribeiro
2005 




POEMAS À PARTE


Todos podemos ler o que os escritores escrevem;
é por isso que alguns escritores escrevem,
para os poder ler.

Outros, são escritores que escrevem
porque não poderiam deixar de escrever;
não para serem lidos ou galardoados,
mas para relaxar a tensão no pescoço,
desapertar um nó que têm na garganta
e vestir a alma de chinelos e roupão.
Entre estes últimos,
encontram-se muitos escritores que não escrevem,
que sofrem, por vezes, de fortes contusões no pescoço
e chegam a sucumbir com a garganta sufocada.

Bastar-nos-á ir a uma livraria,
percorrer os corredores, ser enfeitiçado pelas edições dos topos,
com vigésimas quartas edições, descontos de trinta por cento
e recensões fantásticas em dois ou três canais de televisão.
E se o escritor for da televisão, ah?
Sucesso garantido para uma boa prenda de Natal!
Basta ir ver as novidades à livraria,
como qualquer um de nós faz no supermercado
sem levar a «lista de compras».
Ainda haverá um dia em que o livro é vendido num pack,
junto com uma embalagem de desodorizante,
ou, quem sabe, com uns óculos escudos
ou um saquinho para as compras.

Milhares de livros! Podem escolher!...

Eles têm livros aos quadradinhos,
romances embrulhados em capas de sonho,
com passarinhos e raparigas em pose;
romances policiais que fazem derramar da capa
sangue que escorre pela prateleira e tinge o chão;
livros de história, de filosofia, de direito, de economia,
de ciência, com o cientista na capa de lanterna na cabeça;
livros para a pequenada com heróis sobrenaturais,
criminosos, patéticos e inúteis,
com os quais aprendem nada, muito menos a viver;
livros de culinária, livros de saúde e de yoga;
livros de tudo, a falar sobre tudo;…
Livros que explicam como ser feliz em apenas catorze dias…
E até livros de poemas…
Até livros de poemas!…

É verdade,
que existem livreiros que expõem livros de poemas
ao longo dos corredores, e nos topos,
que chegam a ter até setenta por cento de desconto;
quando os livros de poemas deveriam estar escondidos
numa prateleira de baixo, ao fundo da livraria,
ou mesmo num anexo, num lugar reservado,
como os donos das lojas de aluguer de filmes
têm o pudor de fazer com os filmes pornográficos.
Sim, que um livro de poesia é pura pornografia,
é pura cirurgia.
Deixa os rins, o fígado, os tendões, as vísceras
E as partes de baixo à mostra.

Ler poesia, não é ler um livro; é ler-se.
Ler o que o poeta diz,
é um acto da mais profunda intimidade;
é uma introspecção, um corpo-a-corpo,
que pode provocar uma paralisia nos nervos
e o derrame da alma…
Não se enganem com os falsos poetas
que vos falam dos ramalhetes rubros das papoilas
e da carne desventrada dos crisântemos…
Esses, apenas vos querem inflamar,
Assustar, magoar, fazer sonhar,
ou, na melhor das hipóteses, entreter…

A poesia é aquela que vos fala de coisas
que já há muito sabeis,
mas que por falta de coragem, ou de tempo,
não quereis entender.
A poesia, quando é poesia,
encarquilhar-vos-á os dedos dos pés,
far-vos-á ranger as fontes
e poderá provocar acidez no estômago,
a par de outros efeitos secundários…

Quando o poeta acaba de escrever o poema,
entrega o seu sémen ao mundo, num indecoroso orgasmo!
Entendem agora porque a poesia é pornografia,
não pode nem deve
ser contada em quaisquer reuniões sociais,
não existe no cantinho de espera dos cabeleireiros,
não pode ser contada entre anedotas
e até nem deve sequer ser lida à luz do dia?
Para ler poesia é preciso não ter pudor,
o pudor que se tem, mesmo quando já não é preciso ter.
O pudor, dizia Dumas,
é aquilo que se evapora pelo decote das senhoras…
O pudor é uma das mais poderosas provocações sexuais.
O poema faz parte da natureza das pessoas crescidas,
já bem sofridas.
O poema, como o pudor,
não faz parte da natureza da criança.

O poeta não escreve o que vos quer dizer;
o poeta diz-vos quem é, ele todo;
diz-vos do que é feito e o que sente.
Acontece que às vezes aquilo que o poeta sente
é tal e qual o que você sente,
fazendo-o descobrir que também em si existe poesia!


Vasco Ribeiro

2005






TER QUEM ESPERAR

Gostava que soubesses e pudesses dizer-me:
«quando passares, por favor não fales à mulher do primeiro andar,
porque tenho ciúmes dela».
Gostava de saber e poder dizer-te:
«por favor, não fales com o teu director comercial,
depois das horas do expediente,
porque tenho ciúmes dele.»
Mas nós nunca soubemos, nem pudemos,
e agora não podemos, nem sabemos.

O que ainda nos dá alguma alegria
é os filhos,
sobretudo os netos,
que se espantam pela casa fora,
a partir tudo, a desarrumar tudo
e a perguntar «porquê» a tudo…
É verdade que são uma alegria, os netos.
Ocupaste-os no meu lugar
e eu, de alguma forma, também os terei ocupado no teu lugar.

Lembras-te quando foste ter comigo,
a primeira vez, ao cinema?
À porta do Monumental?
Ias linda, cheirosa e sorridente…
Lembro-me que até achavas graça por eu fumar..
Dizias-me que o teu pai também fumava
e que fumar lhe dava um certo charme…
Agora, exiges que eu me suicide
a fumar debruçado da janela da cozinha,
a embaciar os vidros dos vizinhos de cima
e a deitar cinza na roupa da vizinha do primeiro andar;
aquela de quem tens ciúmes.
Até que tinha graça deixar cair um borrão
e acusares-me de ter feito um buraco
nas cuecas da vizinha do primeiro andar!...

Lembro-me que quando chegaste à porta do Monumental,
não sei porquê,
me fizeste lembrar um manjerico…
Um manjerico!...
Uma planta que só a nós cheira
ou que pelo menos a nós cheira mais
quando lhe passamos a mão…
Um manjerico…
Tinhas um perfume quente que deveria ser da tua mãe
porque era muito quente,
mas que eu achei muito sensual…
Não sei se foste tu que deixaste de usar esse perfume
ou se fui eu que, com o tempo, fui perdendo o olfacto.

Lembro-me que olhavas para mim
com os olhos muito abertos,
como se tudo o que eu dissesse fosse uma novidade…
Agora só falamos no intervalo da novela,
no fim dos primeiros quarenta e cinco minutos do jogo
ou quando vamos ao supermercado.
Lembro-me que tinhas umas unhas assim, grandes,
pintadas de um vermelho vivo,
que eu, feito parvo, admirava
como alguém que nunca tinha visto o vermelho.
Agora o teu verniz parece mas baço,
como o meu olhar;
ou sou eu que não reparo,
como gostaria de continuar a reparar.

Não faz sentido este jejum
de palavras, de sexo e de alegria
por causa de qualquer coisa e de nada…
Possivelmente, a mulher do teu director comercial
também não quer que tu lhe fales,
fora das horas de expediente…
Provavelmente, o amante da vizinha do primeiro andar
não gosta que eu lhe fale, quando passo no patamar…
Provavelmente, por causa disso,
disso e de nada,
eles estão a cumprir um rigoroso jejum
de palavras, de sexo e de alegria…
Provavelmente…
Possivelmente os nossos filhos e os nossos netos
precisariam de ouvir as nossas palavras,
desconfiar do nosso sexo
e partilhar connosco a nossa alegria…

Ia propor-te pintares as unhas daquele mesmo tom de vermelho
e pores aquele perfume…
Eu vestiria um fato novo e inventaria um ar renovado…
Mas o nosso Monumental fechou,
deixando-nos apenas um centro comercial
e uma praça já sem história, nem glória,
como nós, que já mal recordamos
como se abriram as feridas que temos para sarar;
feridas que, vendo bem,
qualquer enfermeiro curaria,
mas que nós já não podemos, nem sabemos curar.

Eu sei que o teu director comercial te acha graça
porque lhe entras pelo gabinete
quase tão fresca
como quando chegaste pela primeira vez
à porta do Monumental.
Eu sei que a vizinha do primeiro andar
é capaz de me achar alguma graça,
porque o amante dela é um patife,
tem artroses e mau génio.
Também é verdade
que o teu director comercial
nunca te viu com aquele roupão
com os estupores dos coelhinhos cor-de –rosa
e de rolos na cabeça!...
Nem a vizinha do primeiro andar sabe
Que a única coisa que eu tenho de atleta, é o pé!

Esta é que é a pura verdade,
a verdade que os engana,
com a qual também nós aprendemos
a viver enganados.
O teu director há-de imaginar que tu não vês novelas,
que tens um roupão liiindo,
que só vestes, quando vestes,
mesmo antes de ir para a cama…
que passas o jantar a sorrir e a conversar…
A vizinha do primeiro andar
há-de imaginar que eu mantenho o charme
vinte e quatro sobre vinte e quatro horas,
como se fosse uma cãibra,
e que tenho erecções olímpicas…
Ela não sabe, quando me vê no patamar,
que chego ao terceiro andar sem fôlego,
com os tendões da esperança a fraquejar.

E sabes porquê?
Porque quando chego ao primeiro andar
endireito as costas, encho o peito
e faço um sorriso,
quase como o que tinha
quando te esperava à porta do Monumental.
No fundo, faço o mesmo que tu
quando entras no gabinete do chefe.

Ai, mulher; como o tempo passa
e nós aprendemos o hábito de deixar de viver.

Amanhã, vou vestir um fato novo
e comprar flores para te oferecer.
Vou esperar-te, no Saldanha, às seis da tarde,
à hora da matiné,
à porta do centro comercial;
e tu levarás as unhas grandes, vermelhas,
e aquele perfume quente como o da tua mãe…
Quero que sejas de novo aquele manjerico
que apenas eu cheiro melhor,
por o poder acariciar…



Ao escrever-te esta carta, consegui compreender
como se dissipou o tempo, neste terceiro andar.
A partir de hoje vou esperar-te até morrer.
Aprendamos a humildade de envelhecer,
porque não há pior morte no mundo,
do que não ter quem esperar!


Vasco Ribeiro

2005





AS MORTES

Nunca se morre devagar
quando se morre para sempre;
de uma vez por todas.

Morte lenta é aquela que nos acontece
depois que se nasce.
Aquele pingo-pingo
que cai sobre a cabeça
dos que se fazem à terra
e dos que se fazem ao mar.
Fazer-se ao céu
é uma outra coisa;
é desaparecer!

Alguns talvez tenham sido cobardes
 fazendo-se ao céu de livre vontade,
apenas para não morrer devagar,
evitando para sempre o arrependimento.
Morrer de livre vontade
é chegar ali e pum!
Já está!

Os que morrem devagar
continuam a sentir o cheiro da pólvora;
continuam a observar no espelho,
a cada cinco anos,
que o entusiasmo fica mais baço
e a alma mais flácida…
Até que o espelho lhes revele uma pessoa normal!

Morrer devagar é querer saber e não saber,
precisar de ter e não ter,
ser e não poder ser…
Isto sim, é lento!
Querer acreditar e já não poder acreditar,
querer amar e já não saber quem amar,
como se pode amar,
se se pode amar…
Isto sim, é morte!

Esta é a morte lenta que se espia
sem ter o privilégio de poder desaparecer.
Ter que assistir a tudo.
Ali, especado, feito parvo,
a ver a vida a falar de nós,
e a decidir por nós,
como se ali não estivéssemos.

Outra coisa, é a morte ocasional…
Como um pôr do sol,
de que se ressuscita
mas com um novo rasgão na carne.
Esta, se não fizer fazermo-nos ao céu,
é, normalmente, discreta e anónima;
Não provoca a abertura da sucessão
naquele momento,
não desafia a perseverança dos credores,
nem a cobiça dos legatários e herdeiros.

Esta é apenas uma morte íntima,
de que se pode sobreviver amputado
e preparado para saber sofrer melhor.
A morte ocasional é aquela que,
a não ser sucedida por outra repentina,
apenas traz mais desilusão, mais solidão e mais frio,
fazendo-nos agasalhar mais e melhor
esta já pestilenta morte lenta.

Na realidade,
na condição de simples mortais,
qualquer um de nós pode experimentar,
a dado momento,
qualquer dos tipos de morte.
Qualquer um!
Em qualquer momento!
Seja na Páscoa, no Natal, nas férias…
mas sobretudo no dia-a-dia, e no Inverno,
quando mais gelam os ossos e a alma.
Quando não pudermos mais calar o que temos para não dizer;
Quando deixamos de nos surpreender e indignar;
Quando apenas amamos a saudade;
Quando não nos restar mais a vulgaridade
nem a solidão;
Quando, despojados de qualquer ilusão,
ficarmos em pelota;
Quando não tivermos mais um desejo,
nem mais um beijo;
Quando já não pudermos esperar, nem esquecer,
apenas durarmos;
Quando já não houver mais caminho
e perdermos o hábito de viver!

Uma coisa é certa:
Todas as mortes são a valer,
não as podemos apenas experimentar!

Outra coisa também é certa;
existem duas verdades universais:
cada um tem as suas próprias mortes
e não há duas mortes iguais!


Vasco Ribeiro

1983





ARTE ANÓNIMA


Sei de génios que não conheço
e que por isso não recordo, nem esqueço,
que imortalizam a arte;
a arte anónima.

Conheço génios que não sei quem são
que pintaram gordas esplêndidas,
como as de Renoir;
que compuseram sinfonias
que poderiam ser de Beethoven;
que escreveram peças
de que Shakespeare se orgulharia.

Sei que eles existem
no secreto mundo da arte,
mas raramente são vistos à luz do dia.
Escrevem, desenham e pintam à luz da vela,
até se acabar o maço
e o cognac conciliar o sono.
Quando saem de manhã,
saem de casa disfarçados,
sem uma cicatriz  e sem glória,
apenas com um cão sem trela
que dormita à noite ao seu lado,
espiando o dono,
e encarregando-se da recensão da obra.

Não sei quem são, não sei onde estão,
mas sei que eles existem!

Existem, porque a arte continua a existir
para além do que está publicado.
A arte tem o seu mundo próprio.
Passa de mão-em-mão.
Passa de boca-em-boca.
Passa de noite-em-noite,
sem que se possa ver o rosto, o curriculum e a mão
do génio que não se quis revelar…
para o mundo;
apenas para o seu cão,
que toda a noite se encarrega da recensão.

Cabe ao pequeno animal apreciar obras
que seriam capazes de nos arrepiar;
de beleza, de humanidade,
 e até de desgosto de não poder conhecer aquele rosto
e não poder ser aquele cão.

Que estes génios existem, existem!
Sob minha palavra d’ honra!

Nós é que não os conhecemos,
não investigámos.
À noite, pelas mesas dos cafés, pelos bancos dos jardins,
no término do cais, junto ao mar…
Se virmos uma pessoa, à noite, na beira do cais,
junto ao mar e junto a um cão sem trela,
estaremos, provavelmente, perto de um desses génios,
que vão buscar o iodo, a maresia e o silêncio
que durante a noite transformam em obras de arte.

Se lhes seguirem os passos, noite tarde,
a ele e ao cão,
terminarão, talvez, numa rua escura e fria da cidade,
num prédio de terceiro andar,
onde os degraus rangem, ao subir e ao descer.
Deixem-no entrar sozinho com o cão,
tirar a pele do dia, pôr-se à vontade
e comer uma lata de sardinhas com massa.
Esperem mais duas ou três horas,
que o cão irá tomar o seu lugar
e o génio vai começar a criar.

Então sim, quando ele já estiver embriagado,
apanhem-no em flagrante delito.
Revistem-lhe a casa,
confisquem-lhe os poemas, ou as canções ou as telas,
porque ele, coitado, nem soltará um grito
e talvez assim possa ser publicado!

Vasco Ribeiro

1983






DIAGNÓSTICO DA LIBERDADE


Perguntaste-me o que é a liberdade.
Bonita pergunta!...
E agora, como é que te vou responder?...

A liberdade é uma espécie de supositório
que se mete pelo cu acima,
das meninas, e dos meninos,
e eles, a dada altura,
começam a ser diferentes,
e a ter ideias extravagantes…

Não, estava a brincar!
Agora a sério!

A liberdade é uma estirpe de vírus,
altamente intrusivo,
que habitualmente se aloja no cérebro
de animais irracionais,
mas que também pode infectar
alguns seres humanos.
Não todos!
É preciso, para tal,
que eles apresentem algumas fraquezas
e reúnam algumas predisposições;
biológicas, morfológicas e psicológicas.
E, mesmo assim, não é garantido!

Primeiro, não podem ser demasiado homens.
Depois, não podem ser demasiado mulheres.
Não podem ser crianças,
mas têm que não ter parado de crescer.
Apresentam uma forte tendência para saber
e para acreditar;
raramente para desconfiar.
Batem-se por razões, ideias e sentimentos
como se de uma dose de feijoada se tratasse.
Têm tendência para sorrir e rir, mesmo ao acordar.
Denotam uma personalidade e uma simplicidade
normalmente difíceis de entender;
podem apresentar sinais cinésicos invulgares
e, não raramente, sinais proxémicos exacerbados!
Manifestam, na maior parte dos casos,
a megalomania de poder com o mundo,
de sofrer com o mundo…
Pior, chegam a querer mudar o mundo!
Têm normalmente tendência para amar;
Amar os homens, amar as mulheres,
os pássaros, os peixes, as flores…
tudo o que mexa e o que não mexa…
Aliás, as estatísticas têm desde há muito revelado
que o vírus se desenvolve particularmente
em ambientes de artistas, de escritores, filósofos…
Não quer dizer que não possa afectar
os que se dedicam às ciências,
mas estes… é que são o diabo…
Sobretudo os poetas;
esses, coitados, têm sido dos mais atingidos.
A dada altura põem-se a dizer
que as plantas também têm alma,
põem pedras a falar,
dizem que deveríamos ser todos irmãos, felizes
e mais não sei o quê…
Enfim…

De uma maneira geral, é isto!

Se algum dia sentires alguns destes sintomas,
não digo um ou dois,
três ou quatro destes sintomas,
corre ao médico de família
e pede uma consulta urgente,
porque corres o risco de estar infectada
pela liberdade!


Vasco Ribeiro
1983







A CIDADE E O CAMPO


Tu aqui?
Não podias ter escolhido outro sítio,
que não aqui?
Aqui?

Ainda eu..
Que tenho os poros intoxicados de dióxido de carbono,
que tenho o corpo macerado de aljubarrotas e quimeras,
os olhos congestionados de mulheres nuas,
e quase nuas,
amigos e vizinhos que têm saudades de si próprios
e a alma desventrada, ao abandono…

Agora, tu?
Que tens no jeito a frondosidade dos penhascos.
Tu, que tens nos olhos o mistério das coisas simples;
que trazes nas mãos as estrias do trigo.
Tu, que és sedutora e irresistível
quando escondes de pudor a tua vagina peluda
e depois gritas de prazer, como uma selvagem.
Tu, que cheiras e sabes a amoras…

Repara no teu jeito desajeitado
com esses saltos altos, a descer a avenida…
Tu tens pés de andar descalça na giesta.
Vê esse sorriso pálido que convencionaste;
que já não é o de duas maçãs vermelhas
que ruboresciam e matavam de desejo
quando contagiavas com a tua gargalhada.

Não queiras ser exactamente igual aos da cidade,
quando a cidade tem falta de gente como tu.
Não queiras ser igual a toda a gente,
porque toda a gente é exactamente igual a ninguém!
Ninguém!

Todos os melhores salões de beleza da cidade
aplicam botox para fazer maçãs vermelhas como as tuas.
Todos os melhores cirurgiões  plásticos da cidade
fazem implantes para ver peitos rijos e fartos como os teus.
Todas as revistas dos escaparates da cidade
recomendam seis truques para saber seduzir, como tu…
Na cidade,
ninguém, absolutamente ninguém,
cheira e sabe a amoras, como tu!

Digo-to eu,
que já comi de todos os frutos
e o pão que o diabo amassou.

Poderás aprender todos os truques e os tiques,
de dactilógrafa, advogada, secretária,
manicure, motorista, engenheira,
prostituta, professora, cabeleireira…
Mas perderás esse teu cheiro a campo,
Esse sorriso de alfazema…
Terás os poros com CO2, como eu.
Terás o corpo macerado de vitórias e quimeras, como eu.
Aprenderás a solidão de domingo, num centro comercial
e terás saudades de ti própria…

Volta para a seiva que te brotou.
Volta para ao pé das coisas que são simples,
naturais, genuínas e belas,
porque tu és tão parecida com elas…
Eu sei que vou seduzir-te,
mas, por favor, não te apaixones por mim;
diga eu o que te disser,
faça eu o que te fizer…
Eu já não sei ter tão pouco como tu.
Eu já não tenho nem paladar, nem olfacto,  nem forças
para esse cheiro a rosmaninho!


Vasco Ribeiro
1982





QUE OS SINOS DOBREM

  
Que os sinos dobrem
quando os teus desejos
são da cor do teu sorriso.
Que a noite fria aqueça
com o abrir dos teus lábios
e a carícia das tuas mãos.
Que o instante seja eterno
e a eternidade um momento
de volúpia
e paz.
Que os sinos dobrem
e dobrem
e dobrem,
como um orgasmo bestial
e carinhoso.
Que os teus desejos se realizem
tão-só
por saberes dar de ti
o que em ti falta
quando não o podes dar.


Vasco Ribeiro
1977






MOCIDADE PORTUGUESA


Sabemos que nenhum de nós nascia fraco ou forte.
Todos nascíamos pequenos, frágeis e dependentes,
sôfregos de uma mama e de um destino.
Depois, éramos entregues pela mão à nossa sorte,
rebentavam-nos os pêlos, as borbulhas e os dentes,
aprendíamos os sítios dos rios, o caos e um hino.

Éramos quase todos pepinos torcidos de pequeninos,
quando chegava a altura certa para nos torcer,
e fazer calibrados na craveira da bitola nacional.
Assim se preparava, então, ninhadas de meninos,
manadas de praças, magalas e capitães para morrer,
servindo, heroicamente, este pérfido desígnio de Portugal.

Depois chegavam os conselhos, os conselhos sábios,
de todos os que já tudo tinham aprendido;
a vida, a ciência, o sexo, a literatura, a religião
e a arte lusitana de saber cerrar os lábios,
calando fundo os sonhos que não tinham vivido
e  que traziam cravados, como rasgões, no coração.

Um dia puseram-me a desfilar, como um espantalho, pela avenida,
com o bivaque castanho nos cornos e as quinas ao peito,
esperando que eu cantasse, inflamado, o hino da mocidade.
Cerraram-se-me as duas mãos, os lábios e a vida,
sentindo que me cheirava a morte aquele leito
que de seu nome se chamava da Liberdade.

Em vez de marchar ao som da banda e dos rufos de tambor,
trotava avenida abaixo, trauteando um poema
de José Maria dos Reis Pereira, de Régio disfarçado.
Dizia para mim: hei-de ir para qualquer sítio, seja onde for.
Sabia que também não iria por aí, tendo pena
de vir a deixar este ventre fecundo, desventrado.

Ai Aníbal Ribeiro, meu tão bendito pai,
que me deixarás da vida esta herança
de saber separar do joio a liberdade.
Sabemos ambos para o inferno que este país vai
quando se castra aos homens a criança,
no pelotão de fuzilamento da portuguesa mocidade.



Vasco Ribeiro

1973





FOGE LIBERDADE


Acostumei-me a este cimento armado,
a este escombro de obséquios sociais,
onde gente que corre para todo o lado
me espanta com tecnologias bestiais.

Uso este fato que me faz parecido
com todos aqueles que se parecem,
porque ser diferente aqui, pode ter o perigo
de não poder ver o sol, quando os outros amanhecem.

Sabes agora porque uso este fato apertado,
como o hábito que sabe distinguir o monge…
Este é o secreto passaporte de refugiado,
de quem tem endereço aqui, mas mora longe.

Apenas a ti posso fazer esta confissão,
desabotoando a alma e pondo-me à vontade,
porque se alguns ainda conseguem ser quem são
a ti o devem, humilde e exilada liberdade.

Corre liberdade, foge para qualquer outro lugar,
devidamente disfarçada e sem bilhete de identidade,
que Shakespeare dizia que o coração fala com o olhar
e tu és toda feita de sentimento e de verdade.

Não me deixes, mas desaparece daqui
e diz-me para onde te posso escrever.
Darei a morada apenas a quem acreditar em ti
e a quem, a hipotecar a alma, prefira morrer.

Mas foge daqui!

Confunde-te com um pedinte, ou com Zeus,
arranja uma morada incerta, ou vive a monte,
mas não te deixes apanhar, por amor de Deus,
antes que a polícia política te encontre.

Podes esconder-te no meu peito, como te dizia,
porque aqui terás sempre o teu lugar,
ou mora no lugar a que chamam a utopia
porque é à utopia que nós vamos acreditar.



Vasco Ribeiro

1972






S E   M E N T E  /   SEMENTE


 S E  M E N T E  que nos deu a vida em leasing
A devolver no estado em que se encontrar
Para a vivermos em cada instante.

S E  M E N T E  que não gera nos homens
Mas nas mulheres
Para as amarmos.

S E  M E N T E  que nasce das pedras
E de todas as coisas ditas brutas
Para aprendermos a natureza.

S E  M E N T E  do sexo, da nostalgia e da paixão,
S E  M E N T E  da semente, da alquimia e até do voo das aves
Para  reinventarmos a utopia.

S E  M E N T E  da aristocracia, da autocracia
Da plutocracia e da democracia
Para sermos livres.

S E  M E N T E  do clássico, do antigo
Do moderno,do post-moderno e do contemporâneo
Para brindarmos o eterno.

S E  M E N T E da vida, da violência, da solidão e da angústia
S E  M E N T E  da fé, da noite, da morte,
S E  M E N T E  da própria sorte...
Para entendermos o acaso e a criação. 

S E  M E N T E  do que temos, do que inventamos,
Do que fica e do que resta,
S E  M E N T E  de tudo o que não presta
E do que somos...

Bendita é a Vossa mentira
E bendito é o Vosso sémen
Senhor.

Benditos seremos nós
Que Vos criámos.



Vasco Ribeiro
1972





MENINAS – FELIZMENTE
(escrito e sofrido antes de partir)


Não se morre um pouco cada dia
e a esperança sabe sobreviver à desilusão,
quando temos este sentimento que nos guia,
esta quase eterna sede de deserto de liberdade
que já secou a gente do campo e da cidade
e já não aguenta mais o fardo da opressão.

Passaram-se tantas conversas e serões.
Passaram-se tantos dias, tantas vozes,
artigos, anedotas, poemas e cantigas,
tantos bilhetes de mão em mão.
Desejou-se de todos os coitos raparigas,
Para não vir a poder servir a nação!

Não queremos mais «meninas – felizmente»,
para não ir à tropa.
Também queremos tomates que sirvam,
mas não para vazar e estilhaçar no ultramar.
Por isso estamos dispostos a desobedecer,
a tudo o que ainda tiver que ser,
porque nós somos feitos de partir, e não dobrar.

E se o preço é a morte em África
ou o inevitável exílio em França,
para que nos sobreviva a esperança
e a liberdade continue a ser mulher…
Então aqui estou
para ser o que sou.
Para o que der e vier!

  
Vasco Ribeiro
1971






TCHIM-TCHIM
(antes de deixar o país)

Recito um poema de indignação.
Um cocktail de amargura
na mão direita
e faço tchim-tchim
a tudo o que não quero.
Já não posso viver de esperança
ou de ilusão.
Só me resta fugir,
mas prefiro sorrir… ou desespero!

Vasco Ribeiro
1970





NO MEU PAÍS


No meu país
passeia-se lado a lado,
entre a vida e a morte,
de braço dado,
na corda do tempo... que cansa...

Sobramos de nós
Envoltos uns nos outros;
Amando irremediàvelmente
o que resta de nós próprios.

No meu país
passeia-se lado a lado,
entre a vida e a morte,
de braço dado,
na corda do tempo... que cansa...


Aprendemos a solidão.
Esse bloco amarrotado
de bolso de camisa de guarda fiscal.
Desabotoamo-nos lentamente
com uma confiança estranha
e uma paz inevitável,
como se deixássemos a camisa de xadrez na praia
para nos fazermos ao mar.

No meu país
passeia-se lado a lado,
entre a vida e a morte,
de braço dado,
na corda do tempo... que cansa...

No meu país
há todos os dias,
às seis da tarde,
um autocarro que não passa,
um homem que não chora
e uma mulher que não dança...

Há em cada cinzeiro
um cigarro mordido e amachucado
por um sonho
que se não viveu;
A mulher que se espera,
a outra que passa
ou aquela que se perdeu...
Mas...

No meu país
há todos os dias,
às seis da manhã,
um sol que renova,
uma janela que se abre
E uma confiança...

Que passeia lado a lado,
entre a vida e a morte,
de braço dado,
na corda do tempo... que cansa...



Vasco Ribeiro
1969






A MULHER FEIA


Ai, Elsa…
Descalça-te para poder beijar-te os pés.
Não, por favor, não tires o teu vestido…
Agora quero só beijar-te ao pés,
lamber-te os dedos,
para saber os teus segredos.

Olha-me este mindinho,
que pequenino…
E que perfeição estes artelhos…
Como podem os homens
excitar-se apenas a partir das coxas,
se há obras de arte, como a tua,
dos pés até aos joelhos.

Agora deixa-me deslizar os dedos
entre os teus cabelos…
Outra vez…
outra…
que sedoso…

Não! Não tires!
Quero levantar-te o cabelo
e passar os dedos no pescoço…
Isso, assim…

Ai, Elsa…
Tu és tão feia…
Tão maravilhosamente feia!...
Isso, assim…

Teria sido um crime teres sido bela;
conhecer-te num filme pornográfico
ou na capa de uma revista…
Com os lábios esticados,
as mãos nos quadris,
sem poder ver-te os dedos dos pés
e sentir-te o cheiro do pescoço.

Quanto as mulheres belas não dariam
para ter estes joelhos?...
Muito provavelmente não dariam,
porque elas não sabem que têm joelhos…
Estas covinhas…

Olha como o teu corpo fala,
em convulsões…
As mulheres belas não têm convulsões!
Têm jantares, festas, fotografias,
montes de fotografias,
em que exibem glândulas fantásticas
ou tetas de silicone…
Mas não estes bicos cheios,
esta curva que nasce do peito
e aponta para o céu…
Isso, assim…

Ai, Elsa…
Se te não quisesse,
propunha-te para um museu;
um museu só de mulheres feias,
maravilhosamente feias,
que haveria de vir a ser visitado apenas
por poetas e poucos outros com imaginação…

E eu seria o teu guarda, o guarda do museu.
Ali, sentado, atrás da secretária, de boné…
A admirar-te os dedos, os cabelos, as ancas…
Corroído de ciúmes
quando se aproximasse um homem
que soubesse apreciar uma mulher feia,
maravilhosamente feia,
como tu!

Passaria o dia excitado,
a transpirar pelo boné abaixo
e exaurido de ciúmes
quando entrasse um grupo de poetas
que se pusesse a apreciar-te…

Teria, então, para me acalmar,
de ver revistas pornográficas, cor-de-rosa e de moda,
com mulheres belas e de proporções exactas,
até ficar em sossego…
Ali, sentado, de boné, atrás da secretária…


Mas tu nunca poderias ir para um museu
porque os museus são para as proporções exactas,
que pouco têm para dar…
E tu entregas-te, sem proporção,
de forma desmedida,
como só as mulheres feias se sabem entregar…

Ai, Elsa…
Não sei nem quero saber do que tu és feita;
se és obra de Deus ou de Satanás.
Sei que és a mulher perfeita
da fotografia que ainda comigo trago na carteira!


Vasco Ribeiro
1966





LÁGRIMAS


Ai, se eu pudesse gritar
por dentro da fúria
do vento que passa…
Ai, se eu pudesse acudir
por dentro das vidas
vividas com raiva
que o tempo ultrapassa…
Ai se eu pudesse violar
de punhos cerrados
estas fronteiras…
E de olhos inchados
pudesse esquecer
as lágrimas caindo…

Oh, triste madrugada
Que me viste nascer, sorrindo!



Vasco Ribeiro
1962





UMA NOITE CALMA



Uma noite calma.
Uma cadeira senta há anos
num canto em que a vida se esqueceu,
ao nascer do sol ou ao desfalecer do dia.

Em cada dia,
um fato cinzento e um copo de brandy
e uma mesa tosca que avassalou no tempo
uma refeição comum.

O bater das horas constantes
no ritmo da sobrancelha ao fazer tricot,
numa cadeira de balouço que não parou.

A figura inerte duma pintura insólita
de heróico e grotesco,
que podia ser qualquer homem lendário
ou a lenda do homem que não existiu.

Em cada dia,
uma noite calma.
O escrever da pena duma mão cansada
que pinta de negro esbatido
uma recordação de infância.
Uma infância calma.

O silêncio dos deuses ou o temor do homem
que não chegou a falar:
perplexo ou prostrado.

O recitar de poesias
que se desvaneceram da decadência da alma
ou no êxtase da existência.

Uma frase contígua que se perdeu
No eco do tempo.
Uma recordação que repousa
na irrealidade da memória.
A música triste dum aparelho que não toca…
e o fantasma de um homem de fato cinzento
e um copo de brandy,
a recitar poesia
que se perdeu no eco do tempo.



Vasco Ribeiro
1962








ROSTOS



Rostos inertes.
Rostos sufocados.
Rostos inóspitos,
duros,
cruéis.
Pessoas desencontradas,
cruzadas,
amantes,
com sorrisos desenhados a lápis…
Corpos dissimulados.
Rostos.
Sombras.
Silhuetas.

Jantar.
Sobremesa.
9 horas.


Vasco Ribeiro
1961






DA MINHA JANELA


Casas,
é tudo o que vejo da minha janela.
Abro o livro,
passeio algumas páginas
e levanto-me para ler as entrelinhas
à janela.
Mas só vejo casas, multidão, barulho.
Volto para o meu livro que fala de formas concordantes,
de mulheres de antes,
de um novo dia
e de gente que ama.

Pareceu-me pousar uma pomba no umbral da janela
e fui espreitar…

Não havia a pomba,
mas gente que passa,
carros que gemem,
árvores que gritam,
gente que odeia,
pássaros assustados,
raparigas que choram,
cabeças que abanam
e o vento que brame
nas velhas vidraças da humilde capela
que agoniza ao fundo
o triste cenário da minha janela.


Vasco Ribeiro
1961